“Tem dias que não tem poesia”, diz Natasha (Linn da Quebrada) em uma cena do episódio piloto de Segunda Chamada. A expressão de frustração é honesta e direta, como muitas outras, por parte de muitos personagens, no restante do capítulo. A nova série da Globo, no entanto, se esforça para encontrar algo parecido com poesia até nos dias mais difíceis.

A estreia assinada pelas criadoras Carla Faour e Julia Spadaccini retrata o dia a dia do turno noturno da Escola Estadual Carolina Maria de Jesus, que abriga as classes do EJA (Ensino de Jovens e Adultos), concentrando diversas pessoas que, por um motivo ou outro, não completaram o seu ensino quando “deveriam”.

As histórias de alunos e professores abordam todo tipo de temas atuais. Natasha, que se denomina travesti, sofre preconceito por conta do uso dos banheiros da escola, se sentindo acuada tanto no masculino quanto no feminino. O piloto dá apenas dicas de que a personagem vai se desenvolver além deste conflito básico (a ligação dela com Lúcia parece ser mais estreita que a dos outros alunos, por exemplo), mas Linn empresta autenticidade o bastante a ela para que o espectador confiar que estas dicas vão dar frutos no futuro.

Enquanto isso, outros personagens apresentam dilemas diferentes. O motoboy Maicon (Felipe Simas), exausto por trabalhar o dia inteiro e depois ir para a aula, aceita um remédio oferecido por um colega para “acordar” e acaba passando mal; logo descobrimos que a professora Sônia (Hermila Guedes), cuja vida familiar é tão caótica quanto a rotina da escola, compra os mesmos medicamentos.

A difícil realidade de uma mãe solteira de baixa renda é o tema da trama que envolve a aluna Solange (Carol Duarte) e a professora Eliete (Thalita Carauta, a melhor surpresa do elenco, em uma performance coadjuvante que promete roubar a cena). Já o recém-chegado professor Marco André (Silvio Guindame) precisa conciliar sua rotina e amigos “hipsters” com a nova realidade com a qual entra em contato na escola.

O título da série não é à toa, portanto. A intenção, tão explícita que só falta ser soletrada pela professora de português Lúcia (Débora Bloch) em uma cena em que dá discurso para os alunos, é mostrar pessoas que passam por diferentes dificuldades se agarrando à segunda chance que só a educação é capaz de prover.

O objetivo é nobre e a execução é inteligente. Enquanto Faour e Spadaccini pintam em cores fortes a dramaturgia de mais um dia de aula, a direção (Joana Jacabe assina a supervisão) injeta urgência e uma linguagem visual realista que pode soar familiar para os espectadores de Sob Pressão, também da Rede Globo, que lança olhar parecido sobre a área da saúde.

Em todos os sentidos, ao menos em seu primeiro episódio, Segunda Chamada quer representar o poder transformativo da educação. A série parece especialmente focada no poder que ela tem de conscientizar o indivíduo sobre as idas e vindas do mundo em que vive, e inspirar o mesmo a agir com a intenção de transformar inicialmente o seu destino, e depois o de todos a sua volta.