Produzido por Sillas, o ensaio une artistas de gêneros, estilos e backgrounds diferentes para falar sobre a mesma coisa: como é ser artista independente no cenário atual do Brasil, como é ter que se desprender das bolhas, de onde buscar inspiração em meio a tanto caos.

O ensaio foi baseado em uma estética vitoriana de realeza e riqueza, mas a mensagem que buscamos junto da direção de arte e da produção era que esses artistas do cenário independente, pouco conhecidos e valorizados, poderiam ser considerados como parte de uma realeza em uma utopia onde o talento e a união conduzissem seus reinados. Pessoas que tem outros trabalhos para poder sustentar a vida artística, pessoas que batalham desde sempre para em algum momento viver apenas de música e ser valorizado por isso, pessoas que enfrentam diariamente as dificuldades de ser artista num cenário onde a competição, os nichos e bolhas separam todos de se unirem em um momento onde as parcerias poderiam ser peças chave para todos.

Além das fotos, aconteceu uma discussão entre o grupo sobre as dificuldades e as possibilidades de ser artista na cena de São Paulo e no cenário político e mercadológico atual. Confira aqui com exclusividade.

 

 

SILLAS: Qual foi o momento em que vocês decidiram que iriam ser artistas, aquele start de: “É isso que eu vou fazer da vida”?

GARBO: Eu acho que pra mim foi quando eu me inscrevi em um programa de televisão. Eu tinha 10 anos de idade, subi no palco e pensei: é isso que eu quero. Eu vi as pessoas me olhando, aquela troca, e foi ali.

TRUTA: Eu canto desde muito pequeno. Minha mãe me colocou no coral do colégio e eu sempre me apresentei no teatro, fazia solo. Desde sempre cantei. Chegar, subir no palco e se sentir em casa, é uma coisa que você vai construindo. Então decidi tal hora entrar em um programa também, como o Garbo e a Gab, e foi legal, fiquei em terceiro lugar. Depois não parei mais, já tive bandas, mas hoje tenho projeto solo. Quando eu canto meus medos vão embora, eu me sinto bem. É uma sensação de bem-estar total, uma terapia.

YMA: Meu envolvimento com a arte começou muito cedo, com 6 anos entrei numa escola de iniciação artística e lá tínhamos aulas de música, dança, teatro e artes visuais. A partir dali comecei a enxergar o mundo através de formas, texturas, cores, sons, movimentos. Não lembro exatamente quando decidi me tornar artista independente, mas a composição me levou a querer trabalhar com música e cantar. É o lugar onde me encontro comigo mesma, com meus pensamentos.

DADDS: Música pra mim sempre foi algo muito presente, e eu sempre soube que se eu quisesse ser feliz eu tinha que buscar fazer isso da minha vida. Sempre pensava: “Calma que vai chegar o momento, você vai conseguir fazer isso, colocar em prática, de verdade”. Porque fazer música é uma coisa que você sempre fez, mas colocar em prática, produzir, é outro rolê. E agora aos poucos está acontecendo, eu só estou me descobrindo cada dia mais. Eu acho que depois que tudo isso começou eu descobri um outro lado meu que eu não conhecia.

GAB FERREIRA: Música foi algo que eu fiz por muitos anos como hobbie, como algo que me fazia sentir bem, que me tirava de lugares da minha cabeça e me colocava em uma zona muito criativa. Eu participei do The Voice quando eu tinha 17 anos quando eu estava bem nessa frase de transição, eu tinha acabado de sair do Ensino Médio, ia tocar minha vida. Eu sempre achei que ia acabar cantando em alguns lugares perdidos porque eu gosto e ia ser isso. E depois do programa eu tive pela primeira vez uma afirmação de outras pessoas de que isso poderia ser um sonho possível, um caminho. Eu estou nessa jornada já há alguns anos e cada vez mais eu sinto que parece que é sempre uma possibilidade em aberto. É um caminho muito ordinário, mas é muito gratificante quando você chega a algum resultado e pensa: “Isso sou eu, isso fez sentido para mim”.

SILLAS: Quando a gente está focando na nossa carreira, nos nossos afazeres criativos e artísticos, a gente tem que entrar numa espécie de bolha para poder criar ou esse próprio criar em si já é um ato de resistência? Porque no cenário independente acontece de se criar uma zona de conforto, nos rodeamos de amigos e pessoas que nos admiram, mas, e o mundo lá fora, e as dificuldades de viver como artista? Como vocês lidaram e lidam com isso?

GAB FERREIRA: Ao mesmo tempo que me sinto bem dentro dessa bolha quando estou lá sozinha, produzindo, eu me sinto mal porque eu sei que aquilo vai acabar daqui meia hora. Quando eu terminar o que eu tenho pra fazer, eu vou voltar pra minha casa, pra realidade. O bom dessa bolha é que você se integra com pessoas que são dos seus. Porque é isso, o mundo está um caos e ele está assim há um bom tempo, é um sentimento de muita impotência. Mas eu acho que essa bolha serve para todo mundo se proteger, pra todo mundo entrar numa ideia de “vamos se ajudar, vamos colaborar, vamos trabalhar juntos, vamos fazer alguma coisa que faça sentido pra gente”.

YMA: Vejo uma certa coragem nas pessoas que vivem de arte hoje em dia. Minha família nunca teve grana, e apesar de me incentivarem a vida inteira, a questão do dinheiro é algo que pesa bastante, no começo o retorno é muito pequeno. É difícil, tem dias que dá vontade de desistir. Mas por outro lado existe uma força que me faz levantar e ter orgulho do que faço. Me fascina o poder que a arte tem em transformar tanto quem produz quanto quem está consumindo. Com ela você consegue ir no mais profundo dos pensamentos e expressar algo que lhe está atravessado. E no momento que você coloca pro mundo, essa mesma expressão é capaz de tocar as pessoas e transforma-las de várias maneiras. E não existe nada mais gratificante que isso.

TRUTA: Eu cresci numa bolha de esquerda. Na minha família mesmo não tem ninguém pró-bolsonaro, tem pessoas que na época da ditadura foram exiladas. Mas, querendo ou não, tem a própria bolha do meu universo e é nela que eu me alimento para fazer minha própria arte. E aí eu acho que é uma bolha muito solitária, tanto na arte de compor quanto no dia a dia, eu acho que a solidão diária é meu maior monstro. Quando eu estou no palco e vejo alguém apreciando minha música, eu vejo que tem duas bolhas se conhecendo.

SILLAS: Eu sei que todos aqui escrevem as músicas e a questão de compor é quase como se fosse um expurgo, uma reflexão pessoal da vida. Eu queria que vocês falassem um pouco de como é o processo criativo de vocês, de onde vocês colhem o conteúdo para colocar em uma música.

DADDS: Eu componho muito baseado na minha vida, na forma como eu observo as coisas. Minhas composições eram basicamente sobre solidão, porque eu acho que eu estou muito nesse momento da minha vida de estar sozinho e de nem sempre conseguir lidar diretamente com esse sentimento, então acabo colocando nas letras a minha percepção disso tudo.

GARBO: Para eu escrever uma letra eu preciso escutar primeiro uma melodia. Então eu sento, começo a produzir o som, só então eu começo a escrever. Eu sempre acabo indo para o lado pessoal também, ou sempre vai se basear em algo que aconteceu comigo ou com alguém que eu conheça. Eu gosto de escrever de uma forma simples as minhas músicas então eu tento não usar muitas palavras difíceis para que todo mundo entenda.

GAB FERREIRA: O meu processo de composição é bem natural. Foram dias que ou eu acordei me sentindo muito bem ou muito mal, e eu sento e escrevo a primeira coisa que vem na minha cabeça, vou pescando várias palavras e vomitando tudo. Depois de ouvir minhas músicas percebo que estava tirando as coisas cruas da mente, que tudo fazia muito sentido com as coisas que eu estava passando naquele momento, dentro dessas questões da solidão, de estar tentando me encontrar dentro da minha própria sexualidade, das minhas experiências com relacionamentos… A gente tem muita dificuldade em falar sobre sentimentos, em se abrir, e é dentro desse meio artístico que a gente consegue lidar com eles de outras formas.

TRUTA: No meu primeiro single, “Água Doce”, tem um verso que é assim: “eu bebo um copo de água doce e um rio dentro de mim com tudo que eu sinto deságua em teu ouvido e adocica o mar”. Minha relação com a arte é muito isso: o que eu recebo, como eu digiro e como eu vou soltar isso, como vai ser chegar nos outros. Meu processo de composição não tem regra, mas geralmente eu vou fazendo letra e melodia juntos. Eu gosto de quando eu estou com o violão porque sai mais rápido, é muito isso sobre o que eu recebo, quem eu quero atingir e como eu quero mudar as coisas com o que eu estou falando.

 

 


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Idealizador e Fotógrafo: Sillas H
Edição e Retouching: Vini Poffo
Styling: Anuro e Cacau Francisco – marca PLÁGIO
Beauty: Gabriel Nurchis
Transcrição de Áudio: Isadora Vitti
Artistas: Dadds, Gab Ferreira, Garbo, Truta e Yma.