1500 foi o ano em que a esquadra liderada por Pedro Álvares Cabral alcançou a costa. Aproximadamente, dois milhões de indígenas já habitavam o território que hoje é conhecido como Brasil. Os portugueses não tinham certeza de onde estavam, mas a população que aqui já habitava, de pele mais escura e avermelhada, lhes parecia estranha. Mas não incomum o suficiente para que os brancos fossem embora e deixassem de explorar a terra alheia. Em 1530, começou, de fato, o processo de colonização, pois a Coroa Portuguesa estava com receio de “perder” o território tão grande e abundante para outros invasores.

Segundo cartas enviadas de correspondentes à Portugal, os nativos não consideravam tabu nem a nudez, nem a homossexualidade (conhecida antigamente como “sodomia” ou até “pecado nefando”).

No Tratado Descritivo do Brasil (1587), escrito por Gabriel Soares de Souza, para a Coroa, com intuito de informar sobre o andamento da colonização, as práticas sexuais dos Tupinambás, tribo que ocupava a maior parte da costa do país, foram apontadas: “são tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam”. Os índios efeminados eram conhecidos na tribo como “tibiras” e as índias que se relacionavam sexualmente com mulheres eram chamadas de “çacoaimbeguiras”. Também existiam as “kudinas”, que eram vistos como homens que decidiram ser mulheres. Todos estes citados eram naturalmente aceitos pelo grupo e sua sexualidade ou identidade de gênero eram vistas apenas como uma das diversas variações e possibilidades humanas.

Anos passaram e o não-heterossexual e o não-cisgênero passam a ser sumariamente oprimidos. Com a justificativa capitalista de que só casais heterossexuais reproduzem e só assim serão gerados novos consumidores, além de argumentos religiosos de “não-natural”, “a bíblia diz que não pode”, os LGBTQ’s passaram a ser vistos como aberrações. Perseguições e campanhas foram realizadas, como uma da Igreja Católica, que dizia que se os fiéis usassem camisinha estariam concordando com a promiscuidade. Logo, a parte da população que era perseguida, começa a ser encurralada.

LUGARES

A Galeria Metrópole, no centro de São Paulo (SP), é um exemplo de lugar de resistência. Inaugurada em 1964 – no mesmo ano do golpe militar brasileiro – a galeria e suas redondezas (incluindo o Paribar), desde o início, foi dominada pelos “entendidos”. Os bares do prédio, que segue de pé até hoje, presenciaram grande parte do movimento LGBTQ+ durante a ditadura. Como rapidamente ficou conhecida por ser point dos “veados”, se tornou alvo de batidas policiais comandadas pelo delegado José Wilson Richetti. O ato de prender criminosos havia se tornado uma perseguição aos LGBTQ+’s e prostitutas, pois estes tipos de libertinagens eram associados ao comunismo.

Além dos bares, na galeria existia também o Cine Metrópole. Uns dos preferidos cenários para pegação gay eram os cinemas e o centro de São Paulo era cheio deles (e ainda é). Além dos lançamentos da época, as salas escuras exibiam filmes pornográficos de conteúdo heterossexual explícito. Mesmo assim, as salas eram cheias de homens que procuravam outros homens para realizarem seus desejos. No Cine íris, no Rio de Janeiro, os frequentadores gays foram ameaçados: Caso não parassem de ir ao cinema, teriam suas identidades reveladas ao público.

A Praça das Flores, como ficou conhecido o Largo do Arouche, após receber o tradicional Mercado das Flores, começou a receber os LGBTQ+’s em 1965, com a abertura do bar, Caneca de Prata. O bar, A Lôca, abre as portas em 1995, levando para a Rua Frei Caneca, antigamente pacata, a comunidade “GLS”, como era denominada na época. Em 2003, após um segurança do shopping Frei Caneca discriminar dois homens se beijando, a rua presenciou um beijaço com quase três mil participantes LGBTQ+’s. Hoje, voltada para o público LGBTQ+ de classe média, a rua passou por um bum imobiliário e também sedia bares, baladas e saunas para a comunidade.

Antes de existirem lugares fixos e especificamente LGBTQ+’s para serem frequentados, o footing era o método utilizado para azaração. As pessoas ficavam andando pela cidade, procurando romances, amizades e até algo mais momentâneo e rápido. Acontecia principalmente lugares como: escadaria do Teatro Municipal, Baixo Augusta, Praça da República, parques (como o Parque Trianon), entre outros.

GRUPOS

A primeira “onda” do movimento LGBTQ+ ocorreu no final dos anos 70. O jornal O Lampião da Esquina foi criado em 1978 (e sobreviveu até 1981) por um grupo de 11 pessoas, em maioria homens gays, que buscavam informar, sobre acontecimentos nacionais e internacionais, a comunidade LGBTQ+ durante o período de ditadura militar brasileira, já que a grande imprensa ou apoiava o golpe, ou era censurada. Em sua primeira edição, o jornal alternativo falava de assuntos como a arte homoerótica e a demissão de Celso Curi, colunista do “Última Hora de São Paulo”, que falava sobre homossexualidade e foi acusado de atentado à moral e aos bons costumes.
Criado a partir dos membros d’O Lampião da Esquina, o primeiro grupo de defesa aos direitos LGBTQ+’s recebeu o nome de “SOMOS: Grupo de Afirmação Homossexual”. Sua primeira ação foi enviar uma carta ao tabloide Notícias Populares, denunciando a linguagem pejorativa utilizada quando os repórteres se referiam aos homossexuais, lésbicas e travestis. Tinha como slogan “Queremos ser o que somos”. O grupo se dissolveu em 1983, cinco anos após sua criação. Em 1980, surge o Grupo Gay da Bahia (GGB), que fortalece o ativismo na região Nordeste do país. O grupo ainda funciona nos dias atuais.

Em 1980 há o relato do primeiro paciente portador do vírus HIV no Brasil, especificamente em São Paulo. Apenas em 1982, o caso foi classificado como AIDS. A epidemia da doença ficou mundialmente conhecida como “peste gay”, mesmo tendo relato de contaminação em heterossexuais quase tão cedo quanto nos homens gays (no Brasil o primeiro relato de contaminação em uma pessoa heterossexual foi em 1983). A população LGBTQ+ começa a ser estigmada, o que atrapalha o avanço do movimento e diminui consideravelmente o número de grupos ativistas.

Entretanto, na década de 90, com o avanço do número de pessoas com HIV pelo mundo, o movimento volta a crescer, tentando conscientizar a população (tanto hetero-cis quanto LGBTQ+). Em 1995 é fundada a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis – ABGLT. A associação foi fundada por 31 grupos e tem como objetivo principal levar reivindicações da comunidade para o Governo federal e à própria sociedade. Em 2004, participou da criação do Programa Brasil sem Homofobia que possibilitou avanços na política pública para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. Atualmente, a associação já é composta por mais de 300 grupos espalhados pelo país.

 


 

texto Arthur Avila
colagem Marcos Boscolo