Conversamos com os coletivos MARSHA! e Animalia sobre uma reflexão da desconstrução que vem acontecendo no espaço da arte no últimos anos.

A violência contra corpos LGBTQ+ no Brasil não foi inventada pelo atual governo. “A transfobia, infelizmente, é algo que esteve sempre presente no nosso dia a dia”, disse Ana Giselle, do coletivo MARSHA!, quando perguntada sobre o acirramento das animosidades políticas e seu efeito no trabalho de um grupo artístico LGBTQ+.

“Acredito que [a transfobia] tenha se tornado mais explícita na mídia, mas a violência que é jogada sobre os nossos corpos sempre foi extremamente cruel”, continuou Ana. Em 2019, assim como nos anos anteriores, o buraco é muito mais embaixo. O preconceito é sistemático, e persiste em espaços gerenciados por pessoas cis. “É uma realidade que nós estamos empenhadas em mudar, criando espaços artísticos administrados inteiramente por pessoas trans e travestis”.

O pessoal do coletivo Animália elabora a razão pela qual corpos LGBTQ+ não são aceitos nem mesmo no espaço da arte. Os membros do grupo responderam às perguntas da Fearless Magazine de forma colaborativa. “Dói neles, ou melhor, no bolso deles, ter que pagar dinheiro para corpos como o nosso, dói neles ver que estamos em processos que vão além de tudo que foi já estabelecido para a gente, dói neles ver a glória a que chegamos quando descobrimos e trabalhamos nossa potência”, comentam os artistas.

O que o paradigma cultural da nossa era ainda não entende sobre arte LGBTQ+ é que ela não é uma caricatura: é essência e sobrevivência, em muitos sentidos. “Todo momento que nós trabalhamos e procuramos espaços para ecoar energia é sempre sobre a nossa essência, não são personagens ou princípios de personas, nós dependemos do nosso trabalho pra ter nosso ganho”, define a Animália. “Porém, é [também] muito mais que isso quando temos noção de que somos corpos artistas e fluentes em expressões que precisam ser colocadas pra fora”.

 

EXPLOSÃO

A palavra-chave, neste caso, é “precisam”. Ana Giselle disse que o MARSHA! foi criado como “um movimento social e de celebração e tributo a todas as pessoas trans e travestis que nos antecederam, para as de hoje e para as que estão por vir”. “O projeto surgiu da necessidade de ter pessoas trans e travestis como donas de suas próprias narrativas, garantir autonomia desses corpos historicamente marginalizados, criar espaços de pertencimento e acolhimento onde possamos fomentar ainda mais o avanço da população T com a articulação do coletivo”, disse ainda.

Um vocabulário parecido foi usado pelo Animália para definir sua missão como grupo. “A mensagem mais forte vem da necessidade de expressão, vem da necessidade de explodir, vem da necessidade de resposta a todo e qualquer tipo de opressão vivida até então. É sobre ressignificar todas as nossas dores enquanto corpo e transformá-las com arte”, disseram.

“Urgência. Falar de arte hoje e não ligar automaticamente à urgência do ser e do que se é acaba sendo um erro”, continuaram. “A necessidade de resposta e a urgência dos nossos corpos parte de uma constante, parte da dor, do chorar sozinha, da violência, mas parte mais ainda da ressignificação da nossa fúria, da nossa raiva, da nossa glória e do nosso brilho”.

Assim, a explosão de expressão da arte LGBTQ+ se torna também veículo de revisão histórica. E seu efeito pode ser ainda maior. “Para o cenário atual, podemos encaixar a arte como um veículo de estímulo e força para pessoas como nós […]. Para além disso, podemos também encaixar como instrumento conscientizador, para pessoas que estão de fora, vivendo outras realidades”, definiu Ana Giselle.

 

 

INCLUSÃO

Nesta missão de extravasar, pelas próprias mãos, os corpos LGBTQ+ para o contexto do imaginário artístico, união é essencial. Ambos os coletivos frisaram a importância da colaboração entre grupos e artistas. “Só vamos permanecer vivas e ter uma chance considerável contra tudo que sempre nos colocou na beira se estivermos alinhadas e munidas pra acabar com essa merda”, cravaram os artistas da Animália.

“Essa aproximação é natural, uma vez que são corpos que dialogam em espaços parecidos ou iguais de opressão”, continuaram. “Não é a dor que nos une, é a resposta a ela. O que nos aproxima é a cura, afeto, carinho e imersão no trabalho que está sendo realizado pelo outro coletivo, pelos outros corpos”.[Merece destaque.]

Mesmo porque a pluralidade é (ou deveria ser) uma marca importante de qualquer reunião de corpos LGBTQ+, gire ela em torno da arte ou não. “Por essência, corpos trans já fogem de qualquer padronização”, disse Ana Giselle. “Por mais que nós estejamos atuando na mesma área, exibimos personalidades tão múltiplas que acredito nunca cairmos na uniformidade. Somos um coletivo extremamente plural”.

A arte LGBTQ+ nunca vai “caber no uniforme”, como bem expressa o Animália. “Sempre foi importante, para nós, estabelecer conexões entre diversas linguagens. Sempre estarmos trabalhando com transições de espaço corpo [entre os membros do coletivo], e nos expandindo para novas trocas também, com outres corpes”.

 

 

AO ATAQUE

Ver e ouvir a explosão expressiva destes coletivos LGBTQ+, e de tantos outros que permeiam São Paulo e o Brasil, é essencial para entender o tempo e o país em que vivemos. Suas lutas, suas dificuldades e seus triunfos ilustram o estágio da quebra de padrões em que estamos como sociedade, mas também ditam o caminho para o futuro.

Como costuma ser na história humana, a arte é a quebradora de barreiras. Nossa capacidade de contar histórias (filmadas, escritas, dançadas, pintadas, tocadas, cantadas) guia e esclarece o caminho da nossa evolução. Não é surpresa que corpos oprimidos extravasem na arte sua frustração e suas esperanças, e a abracem como caminho de pioneirismo. Tampouco é surpreendente que a arte que eles produzem faça os donos do poder tremerem de medo.

Como definem os artistas da Animália: “O medo que o cistema (sic) tem da gente é justamente porque ele tem ciência do nosso poder, e [sabe que] quando colocamos isso na arte, ele se torna mais temível ainda, já que a arte é algo transmutável e que alcança todo ser humano, está dentro de todo ser”.

 


 

texto Caio Coletti
fotos Victor Reis