Um debate em torno das relações homoafetivas nos tempos das conexões e dos amores líquidos

Homo, hetero ou biafetivas. Monogâmicas ou abertas. Presenciais ou à distância. Saudáveis ou abusivas. Implicando apenas em uma boa companhia, ou também em algum tipo de compromisso, o qual, por sua vez, pode (vir a) ser de curto ou longo prazo. Vindo ou não a gerar laços maritais ou parentais. Sendo ou não reconhecidas perante uma instância divina em uma cerimônia. Em todas as suas tantas formas e dinâmicas possíveis, relações vêm sendo um tema cada vez mais recorrente em debates ou reflexões das mais diversas naturezas. Podem rolar de um jeito mais despojado, entre xs migxs em uma mesa de boteco, mas também de um modo mais formal entre especialistas e pacientes nos divãs, como atesta o boom do aconselhamento visto nas últimas décadas. Youtubers e influencers também as debatem com suas fanbases há um tempo. Um exemplo que “viralizou” foi o vídeo “Não Tira o Batom Vermelho”, da Jout-Jout. Os jornalistas também vêm se dedicando a discuti-las, como indicam incontáveis matérias acessíveis por meio de uma rápida busca no site Google. No meio acadêmico, os sociólogos também publicam suas teses, e o exemplo mais conhecido até hoje talvez permaneça sendo Zygmunt Bauman, que, em 2003, divulgou o polêmico Amor Líquido, seu texto mais vendido no país. Devido a tantos olhares, e amparados por estes também, acima de tudo por Bauman, também decidimos prosear um pouco sobre esse tema, cada vez mais comum de ser discutido por aí. E dizemos “prosear”, com toda a conotação informal atrelada ao termo, por nossa meta não ser nem propor máximas morais nem compartilhar insights subjetivos. Nosso objetivo é mais modesto, e se resume a poder “trocar uma ideia” com quem nos lê – a partir de um texto tão polêmico e um autor tão conhecido – sobre o ato de se relacionar, de um modo geral e no meio gay, em um mundo moderno visto por Bauman como “líquido”.

Bauman dedicou Amor Líquido “aos riscos e às ansiedades de se viver junto, e separado, em nosso líquido mundo moderno”, o qual é dominado pelas interações das redes e das conexões, dotado de uma “furiosa individualização”, e informado por uma cultura do consumo que zela pelo “prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro”. Tendo estes (e outros) fenômenos em vista, Bauman quis esclarecer com Amor Líquido, como ele mesmo disse, “a misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laços e, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos”. Por isto, se fôssemos indicá-lo para algum conhecido em um desses papos de boteco, não poderíamos deixar de alertar que Amor Líquido não é um guia que ensine a amar melhor, ou uma lista contendo quais armadilhas evitar para não se tornar refém das famosas “ciladas” ou vítima dos temidos “embustes”, nem um louvor a juras de amor eterno que, em pleno 2018, podem soar um tanto démodé. Bauman não é (e nem quer ser) um conselheiro ou guru do amor, e nem soa como um saudosista dos tempos em que a jura “até que a morte nos separe” reinou invicta. Ao percorrermos suas páginas, na verdade, temos contato com pensamentos dispersos, que não podemos encadear, mas que, lidos todos juntos, formam um olhar que identificou três tipos de relações, com naturezas e implicações distintas, em voga nos dias de hoje: dois destes, o parentesco e a afinidade, vivenciados no mundo real, e o último, as conexões, mediado pelo meio virtual. Tipos que apesar de confundíveis e confundidos devem ser devidamente discutidos, já que, desde a invenção da internet e a posterior popularização das redes sociais, as conexões não somente vieram a coexistir com as relações de parentesco e afinidade, mas também a interferir nestas, ou a ditar a norma que orienta todos os tipos de relacionamentos.

“Somente o parentesco”, aos olhos de Bauman, “é, pura e simplesmente, quer se deseje quer não, uma coisa dada”, um laço “indiscutivelmente sólido, confiável, duradouro e indissolúvel”. Nossos pais são nossos pais, gostemos ou não deles, aceitemos ou não quem eles são. Já a afinidade, de modo oposto à relação parental, é um laço eletivo ou escolhido, pondo em marcha um processo que pode culminar na sua firmação ou no seu rompimento. Bauman pontuou também que a afinidade tem a intenção de ser como o parentesco, isto é, ser tão incondicional e irrevogável como este é exatamente por não ser antecedido pelo direito de escolhermos firmá-lo ou rompê-lo. Contudo, nem mesmo o casamento, um tipo de relação por afinidade que se tornou parental, mantém a aura de ser indissolúvel que mantinha antes do direito ao divórcio e, acima de tudo, nos tempos em que esteve ve em vigor a noção romântica de amor, pois laços “que foram unidos por seres humanos, estes podem, têm o direito de – e, dada a chance, irão – desunir”. E mesmo os laços parentais, nós completamos, vieram a se sentir mais inseguros, uma vez que as estruturas patriarcais em que foram historicamente formados, bem como as opressões (simbólicas ou discursivas) e as violências que reproduziam e reproduzem, vêm sendo intenso objeto de debate e resistência desde a metade do séc XX. De todo modo, Bauman entendeu que o cordão umbilical que une afinidade e escolha nunca se desfaz por completo, e a intenção de manter afinidades vivas e saudáveis prevê uma luta diária e não dá sossego à vigilância, forçando-nos a termos de reafirmar nossa escolha, dia a dia, e a nos esforçarmos com novos gestos para que mantenhamos viva a afinidade – e se assim não fizermos, alerta Bauman, esta vai definhando e se dissolvendo até sumir. Bauman identificou também que “estabelecer um vínculo de afinidade proclama a intenção de tornar esse vínculo semelhante ao parentesco – mas também a presteza em pagar o preço na enfadonha moeda da labuta diária. Se não há disposição, fica-se inclinado a pensar duas vezes antes de agir a partir desta intenção”. Tendo isto em mente, Bauman afirmou que toda afinidade detém uma ambivalência endêmica, uma marca de nascença indelével, ao mesmo tempo sua bendição e sua maldição ou sua sedução e sua perdição: o direito de escolher, a escolha em si, “que, diferentemente do destino do parentesco, é uma via de mão dupla. Sempre se pode dar meia-volta, e a consciência de tal possibilidade torna ainda mais desanimadora a tarefa de manter a direção”. E Bauman concluiu que tal tarefa pode soar árdua em demasia para que encaremos voluntariamente.

Para jogar luzes nos motivos que levam tantos de nós a não manter os laços de afinidade que formamos, quem dirá a firmar compromissos longos ou eternos, e nas razões que levam parceirxs, uns recém- -formados outros de longa data, a ver a tarefa de se relacionar de forma tão desanimadora, escolhendo romper os laços que tinham, Bauman discutiu, antes de tudo, quem somos nós, seus coetâneos, reconhecendo entre nós indivíduos desesperados por terem sido abandonados aos seus sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança de estar junto e por uma mão amiga com a qual contar em um momento de aflição, desesperados por relacionar-se; e, no entanto, desconfiados da condição de “estar junto” e em particular de estar junto “para valer” – para não dizer eternamente, pois temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles nem se sentem aptos nem dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam – sim, seu palpite está certo – para relacionar- -se… Tendo notado este dilema envolvendo a segurança de estar em uma relação e a liberdade de formar novas relações, Bauman contestou se o tema que debatemos com tanto fervor, das mesas dos bares aos divãs, seria mesmo “a arte de constituir relacionamentos”, e não “a arte de romper um relacionamento e deste sair incólume”: “afinal, que tipo de conselho eles buscam de verdade: como estabelecer um relacionamento, ou – só por precaução – como rompê-lo sem dor?”. Para Bauman, a liquidez do mundo moderno também se atesta por esperarmos e desejarmos que nossas investidas românticas (e não apenas as românticas) surjam e sumam de um modo cada vez mais veloz e em montes nunca menores, anulando-se mutuamente e jurando serem mais satisfatórias que os laços anteriores. E Bauman dedicou-se a expor o enorme papel que as redes tiveram na formação e na facilitação do fenômeno de optarmos pelo rompimento das nossas relações hodiernas, valorizando novas relações que podem (vir a) ser mais plenas, e que possamos firmar e voltar a romper sem gerar nenhum dano colateral irreversível ou feridas que demoremos para curar sozinhos. Afinal, notou Bauman, a chance de estar em um relacionamento indesejável, mas impossível – ou desgastante – de romper é o que torna “relacionar-se” uma tarefa tão desleal.

Nas redes, porém, podemos nos conectar e nos desconectar. Não podemos imaginar uma rede se estas duas atividades não forem simultaneamente possíveis, sem ambas estas possibilidades, que gozam do mesmo e legítimo status. Nas redes, podemos atar e cortar conexões nos momentos em que bem entendemos. Logo, comparado a relacionamentos off-line densos, lentos e confusos como as afinidades ou as parcerias é mais fácil entrar e sair de interações virtuais ou conexões, que são leves, desimpedidos e limpos (ou assim se espera que sejam). Por isto, para Bauman, referimo-nos mais a “contatos” ou a “conexões” e menos a “parceiros” ou a “relações” e “parcerias”. Contudo, Bauman não deixou de notar que nossas conexões raramente são apenas conexões, e que as redes também servem como ferramentas formadoras (ou mantedoras) de afinidades que vivenciaremos (ou já vivenciamos) no mundo real. Isto é, apesar de interagirmos on-line com indivíduos que só conhecemos por meio dos perfis que acessamos e das breves mensagens que trocamos, em suma desconhecidos, é comum também adicionarmos nas redes boa parte dos indivíduos – se não todos – que de fato conhecemos ou com quem nos relacionamos no mundo real, e, enfim, não é raro também que mantenhamos forte interesse de virmos a nos relacionar off-line, por uma noite ou por tempo indefinido, com alguns destes desconhecidos que interagem conosco on-line. Devido a estes dois motivos que, para Bauman, as conexões vieram a ditar a norma que orienta a dinâmica das afinidades ou das parcerias.

 

Focando, inicialmente, nas interações on-line entre indivíduos que já mantêm relações no mundo real há um tempo, Bauman notou que, atualmente, um bom parceiro também é um parceiro que interage on-line todos os dias e em diversas redes, uma vez que as introspecções diligentes coexistem, na era das redes, com “interações delirantes”, e o sentido das trocas de mensagens pode não estar mais apenas nas mais as mensagens em si, ou nos temas que contêm, mas também na sua ida e vinda, em suma na sua circulação ou fluxo. Já acerca do nosso interesse de termos relações off-line com indivíduos com quem interagimos on-line, Bauman evidenciou que certas redes foram concebidas justamente a fim de que este interesse seja consumado, e do modo mais veloz possível. Isto nós observamos, por exemplo, nos apps voltados aos dates (como o Tinder, o Happn e o Insta na era pós stories), mas acima de tudo nos apps voltados ao sexo (como o Grindr ou o Hornet no meio gay), por onde os bons e velhos “contatinhos” também são formados – acima de tudo pelos mais tímidos ou introvertidos para fazer o mesmo no mundo real. Uma simples troca de nudes pode bastar para uma noite de sexo rolar, bem como uma boa “cantada” vinda de um “boy gato” pode levar a um date. Além disto, os boys que “não têm local” para noites de sexo ou que não têm as noites disponíveis para dates não tardam a ganhar o rótulo de “enrolados”, e os perfis dos “contatinhos” que não despertam mais interesse e “insistem” em mandar mensagens também podem logo receber um unmatch (unfollow, unfriend, block, etc.). “Contatinho”, aliás, parece ser o termo mais comum hoje em dia para designar este tipo de laço que pode nascer on-line ou off-line, mas que se mantém, acima de tudo, por meio das redes e, por isto, pode ser rompido a todo o momento e muitas vezes sem quaisquer justificativas.

Fora estas questões envolvendo as redes como formadoras, mantedoras e rompedoras não apenas de conexões, mas também de afinidades, há também o fato apontado por Bauman de que o óbito da noção romântica de amor, devido às radicais alterações nas relações de parentesco às quais costumava servir e das quais vinham seu vigor e sua valoração, significou também a facilitação dos testes aos quais uma experiencia deve passar para ser chamada de amor. Por isto, Bauman também não se chocou com o fato de que podemos nos apaixonar mais de uma vez na vida, e nem duvida de quem diz (ou se gaba de) ser mais “vulnerável” ao amor e às suas investidas por se apaixonar e se desapaixonar muitas vezes. Para Bauman, há bases bastante firmes para vermos o amor – e as condições de apaixonado e desapaixonado – como um sentimento recorrendo ao longo da nossa vida, possível de repetições, convidando-nos a novas tentativas.

Foi por meio desta “súbita abundância” das experiências que podem ganhar o epíteto de “amorosas”, e desta inegável inclinação a vivenciar investidas românticas ou sexuais, que Bauman explicou também o fenômeno de termos inventado nas últimas décadas novas formas de nos relacionarmos que visam manter “todas as portas abertas”: os casamentos com comunhão total de bens deram lugar ao “viver/morar junto”, e os namoros às “relações abertas”, para dar dois exemplos. Isto é, no lugar de almejarem um compromisso (longo ou curto, com ou sem solenidades), estes novos formatos de relações são “até segunda ordem”, e, por isto, prever e amarrar o futuro, ali, é algo irrealizável e indesejado, uma vez que ambas as partes têm combinado “esperar para ver como isso funciona e onde vai levar”. Porém, Bauman também notou que o evitamento dos compromissos e a facilitação dos rompimentos que podem decorrer daí são uma “faca de dois gumes”, uma carta que pode vir das mãos das duas partes, e um risco de que ambos os lados estão cientes, e que, por isto mesmo, não livra estes novos formatos de relações da chance de serem não apenas refúgios dos sentimentos de solidão e insegurança, mas também suas estufas. No caso das conexões, apesar do charme dos “contatinhos” ser justamente tenderem a não durar, não é incomum nos vermos ansiando para que alguns destes se tornem parcerias, com ou sem compromisso. E este sentimento, além de poder ser não correspondido, também pode ser não verbalizado e não levar a um rompimento total, colaborando para perpetuar certos fenômenos como o conhecido ghosting, o relativamente novo orbiting e – se for você o contato dispensado e, por um azar do destino, já tiver se “envolvido” – o bom e velho stalking. Já no caso das relações abertas e do “viver junto”, não há motivo para supor que nossxs parceirxs não desejem, se for o caso, escolher partir antes de nós, e que não estejam desimpedidos para fazer isto assim que desejarem. Por isto, Bauman concluiu que estes novos formatos que concebemos para nossos laços, a fim de nos libertar de certos anseios relativos a não podermos sair de relações hodiernas (ou entrar em novas) devido a compromissos que assumimos antes, não nos emanciparam de velhas ansiedades envolvendo rejeição, distanciamento e términos.

Contudo, temos de manter em mente – e isto é o mais importante – que Bauman não trata destas questões apenas para voltar a naturalizá-las, apontar que somos impotentes perante elas ou que delas até podemos correr, mas nunca escapar. Isto é, Bauman não está nos dizendo que a vida agora é assim, ou que amar é impossível na era das redes – como dissemos, Bauman não deu conselhos nem ensinou a amar melhor nas linhas de Amor Líquido, por isto, não há verdades absolutas ou juízos de valor depositados ali à espera de nós para que os conheçamos e os adotemos a fim de nos tornarmos indivíduos e parceiros melhores. Também não soa como se estivesse slut-shamming nenhum de nós, ou afirmando que as parcerias de hoje são menores ou menos sinceras, válidas e maduras que as parcerias de antes. Nem mesmo nos incentivando a em ir dates com todos os matchs que dermos no Tinder, ou a apurar, conhecendo um a um e dando tudo de nós todas as vezes, se o amor de nossas vidas não está entre elxs. Bauman, aliás, foi enfático ao afirmar que uma busca delirante ou totalizante pelo amor e pelo ente amado em um mar de conexões seria não apenas fútil, mas também um infortúnio. Fútil, pois se furtaria de nossas investidas a domá-la, uma vez que “chegado o momento, o amor e a morte atacarão, mas não se tem a mínima ideia de quando isso acontecerá, e, quando acontecer, vai pegar você desprevenido”. E um infortúnio por “uma conexão indesejável ser um paradoxo. As conexões podem ser rompidas, e o são, bem antes que comecemos a detestá-las”

Porém, este vão e desafortunado paradoxo foi tema do episódio “Hang the Dj” da última temporada de Black Mirror lançada pela Netflix, e é com ele que decidimos encerrar nosso texto, pois nos permite expor uma última reflexão em torno do mito grego de Eros, que, talvez, seja também uma sutil ode de Bauman ao amor. No começo deste episódio, vemos Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) se conhecendo em um restaurante sob ordens diretas de seus respectivos Conselheiros, uma inteligência artificial instalada em seus tablets pelo Sistema, um app que decide as relações românticas em que seus clientes se manterão e o tempo que deverão ficar nestas, sua “data de validade”, que não pode ser nem adiado e nem adiantado. Após revelarem que nenhum dos dois usou os serviços do “Sistema” antes, eles checam seus tablets e veem que têm 12 horas juntos, e as passam sozinhos em uma casa conversando até dormirem. De manhã, após o contador em seus tablets indicar que seu tempo juntos terminou, eles se despedem e vão um para cada lado. Em conversas distintas, os Conselheiros de Amy e Frank dizem que o Sistema insere cada cliente em diversas relações, coletando dados a partir das suas reações aos seus parceiros temporários, para voltar a combiná-lo com novos clientes até localizar seu “parceiro definitivo”, cuja identidade é revelada no “dia do emparelhamento” do casal, algo que os Conselheiros afirmam que o Sistema é capaz de fazer 99,8% das vezes. Após isto, Amy é colocada em uma relação de nove meses com Lenny, um velho cliente do Sistema, e Frank tem de ficar um ano com Nicola, por quem sente zero afinidade, e ambas as relações eventualmente se tornam um tormento para todas as partes, que não têm a opção de rompê-las ou sair destas antes do tempo calculado e decidido pelo Sistema, mesmo tendo começado a mutuamente se detestar. Tempos mais tarde, no dia do emparelhamento de um casal, Amy e Frank se veem de novo e passam um tempo juntos, e os dois dão a entender que gostam mais de estar um com o outro que com seus respectivos parceiros. Mais uns meses, chega a data de validade da relação de Amy com Lenny, e ela é posta pelo Sistema em uma série de relações curtas, boa parte se resumindo a noites de sexo e manhãs de solidão. Decorridos mais três meses, a relação de Frank com Nicola também expira, e, após isto, o Sistema de novo o une a Amy. Desta vez, os dois decidem, juntos, não olhar a data de validade da sua nova relação. Porém, dando-se conta de que a ama, Frank se sente inseguro e perturbado com o eminente, mas desconhecido, dia do término da relação com Amy, e, violando a jura que tinha feito a ela, ele checa seu tablet para saber se o tempo restante que terá com ela será longo ou curto. Por um momento, o tablet parece indicar longos cinco anos, apenas para recalibrar, de novo e de novo, para um tempo cada vez menor até, enfim, parar em 20 míseras horas. Frank é informado por seu Conselheiro que sua “observação unilateral” da data de validade encurtou o tempo da sua relação com Amy, e, de manhã, é abordado por ela, admitindo que verificou a data de validade e contando que, por ter feito isto, eles só têm cerca de uma hora juntos, não mais cinco anos. Os dois discutem, e Amy escolhe romper com Frank, irada com ele por não ter honrado o que tinham combinado juntos.

Para discutir este episódio de Black Mirror a partir das reflexões de Bauman em torno do conceito de amor, poderíamos dizer, logo de começo, que Frank foi movido neste momento por uma maldição que, mais cedo ou mais tarde. toma posse de todos os amantes: a maldita recusa em suportar com leveza o fato de que o amor é vulnerável perante o destino, isto é, estar em paz com o fato de o amor poder durar ou não. Para Bauman, é sina do amor, no tempo que venha a durar, que permaneça à mercê do infortúnio, sem nunca ter confiança suficiente em si mesmo para dispersar as dúvidas e abafar a ansiedade, sem nunca saber o que está pela frente e o que o futuro pode trazer. Um futuro que não nos permite tornar previsível o que é incognoscível, e, por isto mesmo, é incerto e inescrutável, temível e misterioso, impossível de ser dito de antemão, de ser antevisto ou evitado, antecipado ou interrompido.

Eros, encarnação mitológica grega do amor, é uma “relação com a alteridade, com o mistério, ou seja, com o futuro”. Por isto, os territórios a que Eros inexoravelmente conduz ao se instalar entre dois ou mais seres é uma terra inexplorada e não mapeada, pois consiste “na intransponível dualidade dos seres”, do amante e do amado. E Eros não sobrevive às tentativas de se superar tal dualidade, de domar o que é desobediente, ou domesticar o que é desordenado. Em Black Mirror, vemos Frank se rebelar contra a natureza mais básica do amor, ser refém do destino, e o amor não tarda a se vingar dele por ter tido a insolência de desafiá-la. No momento em que Frank ousou saber o tempo que viveria este amor com Amy para tentar domar e estar em paz com o destino, o tempo terminou, e Amy o deixou. Bauman também disse que todo amor luta para enterrar as fontes de sua debilidade e incerteza, mas, se obtém êxito, logo passa a murchar e some. Eros é possuído pelo fantasma de Tânatos, encarnação mitológica grega da morte, e não há encantamento mágico que possa exorcizá-lo. Como o desejo de durar pode vir a se tornar o delírio impotente do amor e do amante, o desafio, a atração e a sedução do Outro tornam toda distancia, mesmo reduzida e minúscula, insuportavelmente enorme. A abertura aparenta ser um precipício. Fusão e subjugação parecem ser as únicas curas para o tormento. E não há se não uma tênue margem, à qual facilmente se fecham os olhos, entre a carícia suave e gentil e a garra que aperta, implacável. Eros não pode ser fiel a si mesmo sem praticar a primeira, mas não pode pratica-la sem correr o risco da segunda. Eros move a mão que se estende na direção do outro – mas mãos que acariciam também podem prender e esmagar.

Contudo, Bauman também notou que se o amado for reconhecido pelo amante como um ser plenamente independente, soberano – e não como uma simples extensão, eco, ferramenta ou servo –, a incerteza perante o destino é reconhecida e aceita. A partir daí, “amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas”, em que o medo se funde ao regozijo de um modo tão visceral que não permite mais que se separem. E abrir-se ao destino significa admitir a liberdade no e do ente amado, o outro, o companheiro no amor. Por isto, para Bauman, onde há dois não há certeza. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro. E para Bauman é isto mesmo que o amor faz por meio do amante: destaca “um outro qualquer” de “todo mundo” e, por meio deste ato, remodela-o, tornando-o “o ente amado”, um ser bem definido, dotado de uma boca que se pode ouvir e com quem se pode conversar para que algo possa rolar. E o que seria esse “algo”? Amar, concluiu Bauman, significa manter a resposta em suspenso ou se abster de fazer a pergunta, uma vez que, ao responder, podemos estar apenas tentando prever ou amarrar o futuro. Transformar um outro qualquer em um ser definido significa tornar indefinido o futuro, concordar com sua indefinibilidade.

É por isto que a história de amor entre Amy e Frank pôde continuar apenas após a aceitação total por parte do casal do amor como um sentimento que pode durar ou não, sem nunca se saber de antemão o tempo que virá a durar. Voltemos ao episódio. Depois de mais uma série de relações curtas e indistinguíveis, o Conselheiro avisa Amy que seu parceiro definitivo enfim foi localizado, e que, de manhã, ela saberá quem ele é. Respondendo-lhe, o Conselheiro diz a Amy que seu par definitivo é um homem que ela nunca viu antes, e lhe dá a chance de dizer adeus a qualquer parceiro anterior que ela escolher. Amy rapidamente decide se despedir de Frank, e os dois se veem no mesmo restaurante que vimos ao longo do episódio.

Percebendo que têm apenas alguns momentos para se despedirem, Amy checa com Frank se ele também não tem memórias de como eram suas vidas antes de irem morar na vila do Sistema, e diz que o motivo disto é que eles devem estar em um teste, e que devem se rebelar para passar por ele. Frank concorda, e os dois decidem fugir dali pelo topo da enorme muralha que circunda a vila. À medida que a sobem, as luzes sob seus pés se apagam e uma escuridão “pixelizada” engole tudo ao redor, revelando que eles, de fato, eram parte de uma simulação. Os dois reaparecem em uma área virtual com o número 998 acima de suas cabeças, e cercados por centenas de versões de si mesmos, numeradas de forma semelhante. Após isto, um contador digital anuncia que, de mil simulações, eles se rebelaram em 998 das vezes. Enfim, a câmera muda para o mundo real, onde deduzimos que o Sistema, os Conselheiros e todas as suas versões digitais fazem parte do algoritmo de matchmaking de um app de dates. Em um bar, o app indica que as versões reais de Amy e Frank são um match de 99,8%. De longe, os dois sorriem um para o outro, com a estrofe “Hang the DJ” da música “Panic” da banda The Smiths tocando ao fundo, e Amy anda até Frank.

Mesmo ciente de que havia uma data de validade para sua relação com Frank, ao propor a ele que não a vissem, Amy já tinha aceitado o fato de que o amor pode não durar, contentando-se apenas em não saber sua duração. De modo oposto a Frank, que se rebelou contra a natureza do amor, Amy a aceitou por completo ao se rebelar contra o Sistema, que estipulou uma data fixa para o término de sua relação – e, por isto mesmo, de seu amor – com Frank, impedindo-a de voltar a reatá-la ao tornar imperecível a relação que ela viria a firmar com um desconhecido, impedindo-a de voltar a reatá-la. Não é à toa que o final da história de amor entre Amy e Frank coincide justamente com seu começo. Não temos como saber se a relação dos dois será longa ou curta, saudável ou abusiva, monogâmica ou aberta, etc., nem mesmo será virá a ser uma relação, ou apenas mais um date. Do mesmo modo que não podemos saber o que virá a ser das nossas relações com nossxs parceirxs e contatos. E, apesar disto poder ser um risco a levarmos em conta para evitar relações indesejáveis e impossíveis ou desgastantes de rompermos, acima de tudo se forem impedimentos para formarmos novas relações, isto também pode ser, simplesmente, uma natureza a ser reconhecida à medida que nós, os habitantes deste líquido mundo moderno, percorrermos nossas vidas sob o peso esmagador da mais ambivalente tarefa das muitas com que damos de frente no dia a dia: amar.

 


 

texto Victor A. Godoy
colagens Marcos Boscolo