A subnotificação dos crimes contra a comunidade LGBTQ+ é incontestável. O Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2015, fez um levantamento de dados em notícias de sites e jornais, contando 318 assassinatos no ano com algum indício de “LGBTfobia”, ou em razão da orientação sexual ou identidade de gênero.

No entanto, os registros representam apenas uma pequena parcela dos crimes que ocorrem contra essa comunidade no Brasil, aponta o Grupo. Indicando apenas a ponta de um iceberg de violência. A coleta de dados não devidamente conduzida, e os 958 crimes em três anos contabilizados pelo GGB, é um dos poucos números noticiados. De acordo com o levantamento, as duas principais massas LGBTQs assassinadas no Brasil são homens gays – contabilizando 52% dos assassinatos – e transexuais – que somam 37%. Em seguida, vêm as lésbicas, que representam 5% das mortes. O número de homicídios subiu 30% entre 2016 e 2017, e todos os dados, são do Grupo Gay da Bahia.

 

Os números da LGBTQFobia

Em 2017, foram registradas 445 mortes. Em 2000, foram registradas 130 mortes.
Das 445 vítimas registradas em 2017: 194 gays, 191 trans, 43 lésbicas, 12 heterossexuais e 5 bissexuais .

A cada 19 horas um LGBTQ+ é assassinado ou se suicida vítima da homotransfobia. A falta de dados oficiais sobre crimes contra lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros deixa o país impossibilitado de ter um diagnóstico do problema, não dando margens para buscar uma solução por meio de políticas públicas.

A falta de dados oficiais sobre crimes contra lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros deixa o país impossibilitado de ter um diagnóstico do problema, não dando margens para buscar uma solução por meio de políticas públicas.

De acordo com o psiquiatra Rodolfo Gimenez, a homofobia é, em grande parte, resultado do machismo instalado desde os primórdios da humanidade, e qualquer indivíduo que foge dos padrões, é rejeitado. O crime de ódio ainda precisa ser muito estudado para de fato surgir uma resposta concreta para o assunto, e casos como o de Theusa (Matheus Passareli Simões Vieira), acabam por ser arquivados e esquecidos, sem resolução.

Além dos casos de assassinatos, há os inúmeros relatos “não-oficiais” de assédios não noticiados, tanto com lésbicas, como com gays e transexuais. Joana Costa, 23 anos, conta que basta estar de mãos dadas com sua namorada no transporte público que já é alvo de olhares, e muitas vezes, comentários ofensivos.

“Lembro-me de certa vez no metrô em que trombaram em minha namorada propositalmente e praticamente cuspiram a palavra ‘sapatão’. Às vezes dá medo e tristeza em sair de casa.”

Casos assim acontecem todos os dias, e nunca visto pelos veículos de notícias. Ainda que direitos estejam sendo cada vez mais colocados em pauta em esferas políticas e sociais, ainda há um longo caminho a ser percorrido, a fim de que todos os correspondentes da sigla possam viver com dignidade.

Classificar as coisas pelo que são, como nesse caso, atribuir a crimes contra LGBTQs a classificação correspondente é criar dados sobre o assunto, é trazer luz para esses índices que a comunidade LGBTQ+ conhece na pele. A homofobia mata todos os dias, o que não se tem ainda é a devida documentação e categorização desses crimes para que possamos caminhar para uma realidade de preservação e prevenção.

Logo, o que se enxerga é que o descaso endereçado as mortes de pessoas LGBTQs reflete o tratamento recebido pelas mesmas em vida. Enquanto o que imperar for a cultura de silenciamento, ignorância e ódio, enquanto o que houver for o abafamento e não-visibilidade dessa parcela da população e seus direitos estas pessoas continuarão a viver anuladas e com receio, tanto em vida quanto em morte.

 


 

texto Bruna Daroz
colagem Marcos Boscolo