É extremamente recorrente na história da arte que homens de diferentes regiões do planeta produzam coisas que dialoguem em temática, em estética e em pesquisa. Movidos majoritariamente pelo momento histórico em que estão inseridos, mas também influenciados por questões filosóficas e sociais que movem a raça humana, tais homens produziram arte que dialogava apesar das barreiras geográficas ou cronológicas. A museologia contemporânea e a crescente presença da pesquisa curatorial para além do pensamento de exposições “cubo branco” vem colocando em pauta esses diálogos, expondo na mesma sala peças de arte de diferentes períodos e civilizações para evidenciar narrativas antes pouco exploradas pelo pensamento de que cada movimento artístico existiu isolado, cronometrado e geolocalizado.

O mundo curatorial, porém, ainda é predominantemente heterossexual e masculinista. Assim como o mercado da arte, o estudo da história da arte e tudo que envolve cultura é principalmente tomado por brancos, homens e pessoas heterossexuais que estão hoje incumbidas de selecionar essas narrativas, tecer diálogos dentro da arte e expor esse estudo para o público, de maneira que ainda existem milhões de histórias femininas, lésbicas, negras e latinas que são silenciadas, mas que correm por entre suas obras como um sussurro de resistência por baixo dos museus, e transcende o tempo, a geografia e a sabotagem masculina. O quão curioso é, por exemplo, que encontremos uma mesma narrativa no trabalho de mulheres lésbicas que foram produzidos ao mesmo tempo, mas em continentes completamente diferentes e distantes? Ou que essa mesma narrativa seja identificada por detrás do trabalho de lésbicas que vieram antes e depois delas? Que o trabalho de mulheres lésbicas se preocupe com a representação do corpo de mulheres gordas e que o trabalho de mulheres negras abrace a identidade da mulher latina? Isso pode parecer óbvio ao analisar os trabalhos de artistas lésbicas durante as décadas, mas esse tipo de relação passa absolutamente despercebido pelos olhos daqueles que nunca precisaram vivenciar tal violência: existe uma urgência na arte lésbica de representar as nossas, de registrar as nossas vivências para que a violência misógina não nos apague completamente da história. Não falo aqui de “arte lésbica” como um tema, um movimento ou um nicho, mas sim como tudo aquilo produzido pelas mãos de mulheres lesboafetivas, militantes ou não, como Laura Aguilar, Zanele Muholi, Cheryl Dunye e Zoe Leonard, além de tantas outras apagadas pela história e que tiveram sua sexualidade invisibilizada. É possível identificar nos trabalhos de todas as artistas supracitadas a característica do registro: o registrar como forma de se fazer visível, não apenas pelo viés artístico mas o material, de tornar-se humana e um indivíduo válido, e também o registrar científico, o ato de catalogar para conferir inteligibilidade, para tornar imortal algo tão ínfimo e ameaçado como a existência lésbica.

Dentro dessa narrativa maior, do registro e representação da lesbianidade, é possível ainda traçar pequenos paralelos entre os trabalhos de mulheres inseridas nos subgrupos de discriminação e opressão social. Os trabalhos de Zanele Muholi e Cheryl Dunye são intertextuais, complementares, e ainda que tomem forma em mídias diferentes – a fotografia, a escultura e a pintura da primeira e o vídeo e filme da segunda – e que tenham sido realizados em extremos opostos do continente africano, com mais de uma década de distância, tem impregnados em si a vivência.

É extremamente recorrente na história da arte que homens de diferentes regiões do planeta produzam coisas que dialoguem em temática, em estética e em pesquisa. Movidos majoritariamente pelo momento histórico em que estão inseridos, mas também influenciados por questões filosóficas e sociais que movem a raça humana, tais homens produziram arte que dialogava apesar das barreiras geográficas ou cronológicas. A museologia contemporânea e a crescente presença da pesquisa curatorial para além do pensamento de exposições “cubo branco” vem colocando em pauta esses diálogos, expondo na mesma sala peças de arte de diferentes períodos e civilizações para evidenciar narrativas antes pouco exploradas pelo pensamento de que cada movimento artístico existiu isolado, cronometrado e geolocalizado.

 

O mundo curatorial, porém, ainda é predominantemente heterossexual e masculinista. Assim como o mercado da arte, o estudo da história da arte e tudo que envolve cultura é principalmente tomado por brancos, homens e pessoas heterossexuais que estão hoje incumbidas de selecionar essas narrativas, tecer diálogos dentro da arte e expor esse estudo para o público, de maneira que ainda existem milhões de histórias femininas, lésbicas, negras e latinas que são silenciadas, mas que correm por entre suas obras como um sussurro de resistência por baixo dos museus, e transcende o tempo, a geografia e a sabotagem masculina. O quão curioso é, por exemplo, que encontremos uma mesma narrativa no trabalho de mulheres lésbicas que foram produzidos ao mesmo tempo, mas em continentes completamente diferentes e distantes? Ou que essa mesma narrativa seja identificada por detrás do trabalho de lésbicas que vieram antes e depois delas? Que o trabalho de mulheres lésbicas se preocupe com a representação do corpo de mulheres gordas e que o trabalho de mulheres negras abrace a identidade da mulher latina?

Isso pode parecer óbvio ao analisar os trabalhos de artistas lésbicas durante as décadas, mas esse tipo de relação passa absolutamente despercebido pelos olhos daqueles que nunca precisaram vivenciar tal violência: existe uma urgência na arte lésbica de representar as nossas, de registrar as nossas vivências para que a violência misógina não nos apague completamente da história. Não falo aqui de “arte lésbica” como um tema, um movimento ou um nicho, mas sim como tudo aquilo produzido pelas mãos de mulheres lesboafetivas, militantes ou não, como Laura Aguilar, Zanele Muholi, Cheryl Dunye e Zoe Leonard, além de tantas outras apagadas pela história e que tiveram sua sexualidade invisibilizada. É possível identificar nos trabalhos de todas as artistas supracitadas a característica do registro: o registrar como forma de se fazer visível, não apenas pelo viés artístico mas o material, de tornar-se humana e um indivíduo válido, e também o registrar científico, o ato de catalogar para conferir inteligibilidade, para tornar imortal algo tão ínfimo e ameaçado como a existência lésbica.

Dentro dessa narrativa maior, do registro e representação da lesbianidade, é possível ainda traçar pequenos paralelos entre os trabalhos de mulheres inseridas nos subgrupos de discriminação e opressão social. Os trabalhos de Zanele Muholi e Cheryl Dunye são intertextuais, complementares, e ainda que tomem forma em mídias diferentes – a fotografia, a escultura e a pintura da primeira e o vídeo e filme da segunda – e que tenham sido realizados em extremos opostos do continente africano, com mais de uma década de distância, tem impregnados em si a vivência da mulher lésbica e negra, que não precisa ser a temática dessas artistas para que seja entendida, para que conte uma história triste, de violência, e seja palpável num trabalho que carrega a identidade daquela que o produz, uma condição social que marca a artista lésbica de maneira a tornar-se tão presente em seu trabalho como a própria identidade.

Laura Aguilar, mulher lésbica, gorda e latino americana que faleceu esse ano, dedicou a maior parte da sua vida a registrar fotograficamente as mulheres lésbicas que conheceu. Seja por meio de retratos de casais lésbicos, retratos individuais acompanhados de pequenas histórias dessas mulheres, capturas de suas rotinas, fotos de mulheres latinas e lésbicas expressando sua sexualidade e identidade dentro de solo norte americano, Laura se preocupava, assim como Zanele Muholi, em registrar aquelas pessoas invisíveis e esquecidas. Até mesmo depois da sua morte, a artista é comparada e têm suas narrativas construídas pelos caminhos heterossexuais e seu trabalho é sempre associado ao de mulheres magras, heterossexuais, que foram sua inspiração, mas que não dialogam com o produto de sua pesquisa. Paralelos aos seus registros artísticos documentais, Laura mantinha o corpo gordo como motor de sua produção, como força ativa de sua produção e interseccionava questões de feminilidade, de gordura e de sexualidade. Laurie Toby Edison, uma mulher magra e lésbica, fez a mesma coisa com seu projeto Women en Large. É interessante observar como o trabalho dessas mulheres, que não era especificamente sobre lesbianidade, se cruza, e, dentre tantos motivos, acredito que seja seguro assumir que é no isolamento da masculinidade tóxica e da heteronormatividade que floresçam questões intrinsecamente femininas, e essas condições só são possíveis com produções necessariamente lésbicas.

 

É por isso também que vemos essas mulheres, como Zoe Leonard, explorando em seu trabalho o tema da maternidade e tratando de problemas da comunidade LGBTQ+, assim como Laurie Toby fotografou homens para falar do imaginário irreal de virilidade, e assim como artistas lésbicas seguem até hoje tratando sempre de questões que conversam entre si, que remetem a trabalhos muito anteriores a sua própria época e que com certeza serão referenciados muito além dela. Se a contemporaneidade é, como dizem os filósofos da arte, tudo aquilo que se distancia de seu tempo e fala sobre ele, a arte de mulheres lésbicas marginalizadas é o que existe de mais contemporâneo em toda a história da arte. Podemos observar esse fenômeno com mais clareza e acessibilidade no cinema, por exemplo, que frequentemente é ignorado enquanto mídia artística, mas que participa dessa mesma intertextualidade de produção lésbica. A filmografia da cineasta e roteirista Dee Rees, mais especificamente o premiado filme Mudbound, é um exemplo que nos remete diretamente aos trabalhos de Zanele Muholi, pois é centrada na vivência negra, faz uma pesada crítica à cultura escravagista, aborda a identidade negra e tem a ótica e tratamento da artista lésbica, sendo diferente, por exemplo, de trabalhos que tratam da mesma temática e são executados por homens. Não por um suposto cérebro feminino, ou uma “sensibilidade e delicadeza femininas”, mas sim pelas marcas da vivência lésbica e como ela transparece de maneira tão própria na produção artística e tão preocupada em ser acessível, em falar com outras mulheres nas mesmas condições, como o filme de Dee Rees, Pariah, e como ele assim como Watermelon Woman, de Cheryl Dune, é feito quase como que apenas para ser assistido por mulheres lésbicas negras, como se houvesse neles um código secreto, colocado lá por elas e que só pode ser acessado e verdadeiramente compreendido por outras mulheres nas mesmas condições – como um código secreto de resistência, uma língua que não pode ser compreendida pelos algozes da arte, que passa despercebida pelos olhos masculinos e chega apenas em quem ela precisa chegar, em quem precisa dessa comunicação, dessa identificação.

A nossa arte, a arte lésbica, está repleta dessas pequenas mensagens e é apenas indo atrás de consumi-la, popularizá-la, falar dela, promover exposições e incentivar meninas a entrar em contato com ela que podemos manter viva essa resistência e garantir que essa mensagem – ainda que muitas de nós, as brancas, as de classe alta, não sejamos capazes e nem precisemos compreender todas – chegue no maior número de mulheres possível e não seja apagada como por muito tempo conseguiram fazer.

 


 

texto e colagens Giovana Macedo