A crônica “Encontros Invisíveis” aborda a história de um garoto bissexual na busca pelo amor.

PRIMEIRO ENCONTRO

Já passava das quinze horas de uma tarde ensolarada na cidade dos atrasados. Havia muita gente na catraca da estação Consolação, como era de se esperar para um domingo. A avenida Paulista fechada era a melhor opção para o primeiro encontro.

Ela estava chegando, avisou por mensagem e mandou uma foto mostrando que estava no metrô. Sorria ansiosa. Ele estava em sua terceira bala de menta e também mandou uma foto “de boa”. Embora parecesse sério e completamente tranquilo, não conseguia passar mais de um minuto com a mesma música tocando nos fones de ouvido. Não sabia se deixava as mãos no bolso ou se cruzava os braços.

O encontro aconteceu. Passearam pela avenida, riram, conversaram, beberam e até pararam pra uma foto ou várias. Eles se beijaram algumas vezes e as pessoas continuaram passando como se aquele ato fosse a coisa mais comum de todas as coisas no mundo. E realmente era: um beijo. Um casal. Um encontro em um dos cartões postais de São Paulo. Algo comum.

Já estava escuro quando os carros voltaram a transitar pela avenida. Na calçada em frente ao MASP, ela parou para dizer que precisava ir. Ambos moravam longe dali, longe um do outro. O rapaz a abraçou e foram juntos até a estação Trianon. Entraram e encostaram-se em uma parede onde novos beijos foram trocados, enquanto isso, o metrô chegava e partia da estação. Jamais saberão ao certo quanto tempo ficaram ali. Aproveitaram da melhor forma.

As fotos foram publicadas. Alguns likes, comentários e insinuações de um novo relacionamento. O casal, já separado, trocava um carinho ou outro por mensagem, com um toque de saudade, e passavam os relatos do encontro para os amigos. Haveria um replay. Iriam marcar. Nascia ali um relacionamento normal.

 

SEGUNDO ENCONTRO

Já passava das dezenove horas na cidade do trânsito, quando o rapaz subiu as escadas rolantes da estação Consolação. Ele parou próximo das catracas e olhou o celular. Outro rapaz estava chegando. Os dois se cumprimentaram com um abraço, um beijo no rosto e saíram andando em direção ao cinema do shopping mais próximo.

O mais velho disse que assistiria qualquer um dos filmes em cartaz e que o importante era o encontro. O mais novo queria ver um filme de terror. Com os ingressos comprados, foram para a fila da pipoca. Um abraço aqui, um carinho ali e sempre aquele olhar esperançoso. Sentaram-se na penúltima fila, a sessão ia começar.

O filme não era bom, não dava medo algum, apenas um ou outro susto. O mais velho sempre gargalhava quando o mais novo tremia aflito. Passaram parte do filme de mãos dadas. Um beijo aqui e outro ali fizera com que perdessem parte da história, mas àquela altura não importava. Não faziam a menor ideia do que se passava no filme até que acabou. Beijaram-se, levantaram, jogaram o saco de pipoca fora e deram as mãos para sair da sessão. Um gesto comum, certo?

Pararam para um café. Agora, mais confiantes e relaxados um com o outro, se abriram e conversaram. Trocaram mais risos, mais beijos e não soltaram a mão um do outro. Na saída, um abraço apertado e uma troca de olhares intensa, antes de um beijo mais demorado. Atraíram alguns olhares, mas eles não saberiam disso. Soltaram as mãos apenas quando um seguiu sentido Vila Madalena e outro Vila Prudente.

Já em seus lares, mandaram mensagens para informar que haviam chego sãos e salvos. Trocaram outras mensagens alegres e carinhosas também, antes de contarem aos amigos sobre o rolê. Marcaram um próximo encontro na mesma avenida, para criar novas lembranças. Nascia ali um relacionamento normal, não é?

 

O FIM DOS ENCONTROS

Esses encontros aconteceram próximos um do outro, mas em períodos bem diferentes. Ocasiões ruins fizeram com que novos encontros surgissem sempre com o mesmo ar de insegurança.

Quando contou para que era bissexual, a garota não gostou. Disse que tinha reparado que ele era menos “homem” que a maioria dos que ela já havia saído, mas que isso não era um problema em si. A orientação sexual dele era todo o problema.

Ela não pode ir ao próximo encontro e não respondia mais as mensagens enviadas. Ele encontra o Twitter da melhor amiga dela e envia uma mensagem para saber se tudo estava bem, porém a amiga dela postava mensagens como: “Só a doida pra sair e se apaixonar por viado”. Talvez fosse melhor deixá-la lá e seguir a vida.

O homem mais velho era decidido, maduro e simpático. Estava de mente aberta e aceitou o convite para sair. Talvez não fosse tão maduro assim e menos ainda simpático, entretanto, era mesmo decidido. Não sairia com um cara que não sabe se é gay ou se é hétero, que não tem coragem de assumir uma ou outra coisa e ser feliz. Optou por encerrar ali a conversa e disse, de forma nada dócil, “Você ainda tem muito o que aprender, vai amadurecer e sair do armário”.

Era difícil explicar que nunca estivera no armário, até porque seu espírito sempre demonstrou que o certo era amar, independente de sexo. Queria alguém ao seu lado, não um sexo. Uma pessoa. Alguém capaz de corresponder e aceitar todo o sentimento que dos encontros brotassem. Não era tão simples.

Não era gay. Não era hétero. Era apenas um bi tendo que optar entre A e B, esquerda e direita, cá e lá e nunca podendo dividir-se e mostrar que, no fundo, queria apenas ser e explorar seu maior valor: o respeito em se jogar com tudo para amar. A luta diária contra o silenciamento estava muito longe de acabar.

Quando não “estava” gay, “estava” hétero. Em certos encontros era seguro e normal beijar na rua, em outros era mais sensato ser cauteloso e expor- -se apenas se valesse a pena. De qualquer forma, era invisível em todos os encontros. Para a sociedade, um encontro sempre seria entre um homem e uma mulher, ou dois homens, duas mulheres, mas jamais entre um hétero e um bi. O que era um bissexual? Um cara em cima do muro? Para sua própria infelicidade, ele ainda sustentaria a esperança de que os encontros acabassem, um dia. Mesmo que apenas no próximo date, ou no outro…

 


 

texto Luiz Marques
ilustração Guilherme Lourenço