Nossa cultura é obcecada com primeiros. “Como foi a sua primeira vez?”, perguntamos aos outros sobre suas experiências sexuais. O “primeiro amor”, então, há uma aura que não chega nem a ser mística, porque é na verdade totalmente mitológica – tal qual a grega, a romana ou a católica, aliás, a mitologia do primeiro amor tenta explicar uma experiência plural e natural com histórias elaboradas e absolutos falsos.

O livro e o filme Me Chame Pelo Seu Nome, em turnos, reforça e desconstrói essa mitologia. Com sua fotografia difusa, seu cenário tanto luxuoso quanto decadente e sua sexualidade à flor da pele, celebra um romanticismo enganador, por baixo do qual se escondem as rachaduras e distorções do abuso, e do que levou a ele. Me Chame Pelo Seu Nome não é uma história de amor, embora tente maliciosamente nos fazer crer que é.

Os avisos estão em todos os lugares: a forma como o mais velho Oliver provoca o mais jovem Elio com asserções e dúvidas (“Você realmente se importa tanto com o que eu penso?”); o encurrala para se fazer de único ponto de escape para um adolescente em plena construção de identidade (sexual, religiosa, cultural); usa o sexo como arma para mantê-lo firmemente preso, em eterna expectativa, a uma paixão que não pode levar a lugar nenhum.

Me Chame Pelo Seu Nome, o filme, sabe muito bem disso – esconde os sinais de abuso na interpretação magistral e magnética de Armie Hammer, nas entrelinhas dos diálogos mais inócuos (Oliver e o pai de Elio discutindo as estátuas que são seus objetos de estudo, por exemplo) e nos momentos mais provocativos (a célebre cena do pêssego, e o desmoronamento emocional de Elio no momento seguinte).

 

ELIO, ELIO, ELIO…

Mais do que tudo isso, no entanto, Me Chame Pelo Seu Nome expressa a verdade do que aconteceu com muita gente na comunidade LGBTQ+. “A primeira exploração da minha sexualidade foi inacreditavelmente libertadora, eu me apaixonei por um menino mais velho e senti uma enchente de sentimentos que estavam presos em uma barragem por 17 anos. Muita coisa começou a fazer mais sentido, mas isso foi aos poucos se corrompendo, começando pelo sexo em si – o ato foi doloroso, confuso e eu estava completamente dominado de corpo e mente por ele”, conta G., 20 anos.

“Tudo o que eu sabia sobre sexo era o que ele me mostrava e ele dizia que passivo não sente prazer mesmo, que é só dor e uma demonstração de que gosta do outro, e assim foi”, continua. “Ele inclusive foi passivo uma vez, e foi muito desconfortável. Além dos problemas da indústria pornográfica influenciando as pessoas que iniciam a vida sexual, se elas estão começando com alguém mais velho e mais experiente, estão ainda mais vulneráveis ao que é externo e menos à exploração da própria sexualidade e do próprio corpo”.

Embora nem sempre aconteça no mesmo nível, no mesmo tempo ou do mesmo jeito, são paralelos fáceis de se fazer dentro da comunidade LGBTQ+. M., 24 anos, relata: “Meu quarto parceiro foi um caso mais grave. Ele era bem mais experiente e sabia que eu estava ainda começando minha vida sexual. Ele não foi nada gentil, por algum motivo deve ter achado que eu gostaria de algo mais ‘hardcore’ e me machucou no meio disso. Para ele eu reclamei de dor, muitas vezes, ele fazia parecer que era normal que já, já acostumaria”.

“Eu já tinha até defecado de dor, fato pelo qual acabei me culpando. Achei que tinha feito minha higienização de forma errada, porém não parei para notar que o lençol não tinha só fezes, mas muito sangue também, e isso com certeza não foi culpa minha”, conta a seguir. “O sexo durou até onde ele conseguiu, chegou em um ponto no qual a situação já não estava mais minimamente confortável pra continuar, e ali acabou. Demoraram alguns anos para eu ter maturidade de entender a situação toda e perceber que aquilo nunca deveria ter acontecido”.

Quando a conversa se volta para as mulheres lésbicas, ela se torna ainda mais complexa. “Eu nunca tinha parado para pensar sobre ser lésbica ou não. Eu tinha várias amigas lésbicas e vários amigos gays, eu era a amiga hétero super legal, que não tinha preconceito e tal. Minha primeira vez com uma mulher aconteceu como coisa de momento, tipo, ‘você quer?’, ‘quero’, e aconteceu. A princípio eu não tinha visto como um sexo lésbico, mas no dia seguinte, numa conversa, percebi que aquilo não era coisa de amigas”, comenta K., 24 anos.

“A primeira mulher com quem transei era três anos mais velha – ela foi muito cuidadosa, carinhosa e super preocupada com me deixar 100% a vontade. A experiência foi ótima. Mas ela não foi a única mulher mais velha que me relacionei sexualmente, aconteceu com uma outra mulher e foi horrível”, continua. “Ela me forçou fazer coisas que eu não estava com vontade. Acredito que algumas lésbicas acabam reproduzindo comportamentos masculinos como forma de validação e isso é péssimo para as relações”.

H., 19 anos, conta uma história diversa. “Até hoje não sinto que me aceito completamente, tenho questionamentos sobre quem sou e o que quero várias vezes ao longo dos dias. Algumas poucas pessoas ao meu redor sabem como me sinto e até devem me entender melhor do que eu mesma”, comenta. “Nunca estive com mulheres mais velhas, mas mais experientes sim. Não acho que isso tenha feito a experiência melhor, eu era muito nova quando tive minha primeira experiência e isso não me proporcionou muito diálogo sobre o que era a sexualidade e como me sinto em relação a isso”.

Não é surpresa, ao falar de sexualidade, que exista esse leque de experiências completamente diversas. “Cada ser humano vivencia seus primeiros contatos com as experiências sexuais de uma forma singular, baseado em suas concepções pessoais e sociais. As questões fisiológicas e psicológicas envolvem ambos, LGBTQ+ e heterossexuais cisgêneros, mas o que pode ser percebido de diferente entre eles é que o público LGBTQ+, muitas vezes precisa, primeiro, lidar com a própria aceitação”, reflete Wendrel Natan, formado em psicologia pela USF (Universidade São Francisco).

 

EM ALGUM LUGAR NO NORTE DA ITÁLIA…

O filme ter sido encarado por muitos como um romance normal, igual a qualquer outro filme do gênero, é um sinal de uma sociedade doente. Mais do que isso, Me Chame Pelo Seu Nome para muitos tem uma atração especial, erótica, sensual e muito “bonita”: o abuso.

A cultura LGBTQ+ não nasceu no meio dos ricos e famosos, muito menos em E O Vento Levou ou em qualquer outro romance mundialmente conhecido. Ela veio da resistência, da revolução dos conceitos até então estabelecidos. Mesmo assim, ainda vemos os relacionamentos homoafetivos muito influenciados pelo machismo e pelas relações de poder existentes nos casais héteros, o que podemos chamar de uma certa heteronormatividade. Esse conceito ainda não foi devidamente lacrado por diversos motivos, a citar sua grande influência pela mídia e a problemática do preconceito, interno do indivíduo e coletivo da sociedade, que vulnerabiliza as discussões sobre o assunto.

“Uma particularidade em relações homossexuais eu acho que é a repressão sexual, isso nos deixa mais vulneráveis a esse tipo de abuso já que muitas vezes não podemos falar sobre ele com mais ninguém e acabamos prisioneiros desse sistema, seja em relações constantes ou em casos isolados”, comenta G.
As consequências desse tabu agridem a saúde mental e física – consequências essas que tanto levam a sociedade a acusar a comunidade LGBTQ+ de depravada, quanto tiram a seriedade do assunto que envolve todos os gêneros e sexualidades. Precisamos de educação sexual – uma solução que até hoje continua sendo ridiculamente desprezada, como comenta o psicólogo Wendrel Natan: “Se para os adolescentes heterossexuais, socialmente considerados ‘adequados’ dentro do padrão heteronormativo, já há um imenso descaso em relação às orientações formais sobre a sexualidade, para o público LGBTQ+ essa realidade fica mais longe ainda do que seria ideal. Dificilmente, ou quase nunca, você verá uma escola dando uma orientação sobre sexualidade que englobe as relações de pessoas com o sexo biológico semelhante e, quando surge algo com essa temática, automaticamente já se torna motivo de chacota.”

Nesse contexto, o preconceito se prolifera. “Acho importante nesse tópico também dizer o quanto eu me senti envergonhado ao contar para alguns amigos da minha experiência, coisa que deve ter muita raiz nesse preconceito, principalmente quando contei para amigas héteros… No momento eu estava muito entusiasmado e acabei contando, dias depois me arrependi amargamente, como se eu estivesse me sentindo sujo por ter sido passivo. Foi como decepcionar os outros, dizendo de forma bem crua”, relata M.

Em uma sociedade machista, se comparar com o papel de gênero feminino é se inferiorizar. Mas, afinal, em uma relação que tem dois indivíduos do mesmo gênero, o privilégio do papel de gênero masculino de um depende da vulnerabilidade do outro em receber tais imposições. “Por essa cultura ter uma raiz extremamente profunda, assim como as relações de dominação do homem sobre a mulher, muitxs passivxs internalizam a ideia de que elxs, de fato, estão ali apenas para satisfazer o outro, podendo submeter-se a desconfortos físicos e psicológicos”, cita Wendrel.

Logo, o abuso é caracterizado por algo que vai muito além do sexo, inclui também todo o jogo psicológico de Oliver com Elio, por exemplo. É aí que a história deles fica mais interessante, quando podemos discutir o seu significado, as suas causas e as suas consequências – não foi uma decisão homogênea de naturalizar essa relação e a cultura LGBTQ+ continua resistindo. Mas ainda há muito para desconstruir ao nosso redor e também dentro de cada letra.

 

A ALEGRIA QUE VOCÊ SENTIU…

Prova disso são as sequelas que uma experiência abusiva pode trazer, as marcas permanentes e passageiras que ela deixa no corpo e na mente. “Tive muita dificuldade em me relacionar com pessoas depois, não conseguia ter relações sexuais sem sentir nojo da pessoa, não era algo que eu controlava. Por ter sido com outro homem, passei boa parte da minha vida acreditando que eu era lésbica por sentir nojo de homens”, comenta H. “Eu fiquei tensa por um tempo, evitando qualquer relacionamento que pudesse durar um pouco mais, mas hoje isso já não me afeta mais”, reforça K.

“Eu, basicamente, lido com traumas sexuais diariamente. Até possuo libido, tenho vontade, excitação, mas tenho medo de estar com alguém numa cama novamente. Desenvolvi problemas de ereção psicológicos, a ponto de não conseguir ter uma ereção me masturbando se alguém estiver junto comigo”, completa M. É de grande importância tomarmos ciência de que existem esses problemas nas relações homo afetivas, uma vez que lutamos tanto pelo direito de amar, e não podemos acabar corrompendo esse sentimento, que foi a base dessa luta, com a reprodução de um sistema abusivo e heteronormativo.
Portanto, existem conceitos a serem desconstruídos e muito machismo para ser combatido dentro do meio LGBTQ+, mas isso não acontecerá da noite para o dia, e o sucesso de 100% pode ser uma utopia. Dessa forma, em paralelo a essa conscientização, existe a recuperação e o trabalho psicológico de quem fez ou faz parte desse tipo de relacionamento. As marcas de um relacionamento abusivo podem ser tratadas para que a pessoa volte a ter uma vida sexual com um psicológico saudável. Para isso, Wendrel traz indicações do seu ponto de vista profissonal.

“É muito importante que as pessoas que fazem parte do círculo social de sujeitos que já tiveram um relacionamento abusivo nunca reproduzam a ideia de que a vítima escolheu estar naquela posição”, começa. “É crucial entender que a pessoa abusiva cria uma relação de extrema dependência, por parte da vítima, fazendo-a acreditar fielmente que ela precisa dessa relação para viver e que não irá conseguir continuar sem o outro. Dessa forma, aumentar o sentimento de culpa não ajuda a vítima a se desenvolver, apenas piorando os efeitos [do abuso]. Portanto, primeiramente se faz necessário compreender que a vítima precisa de seu espaço, visto que perdeu o mesmo durante o relacionamento e precisa reconquistá-lo, sem ignorá-la ou deixar de dar apoio”.

“Posteriormente, dependendo de seus traumas e de como esses afetam sua vida, é importante que a vítima busque promover o autoconhecimento, com o qual a psicologia tem muito a contribuir. Além do autoconhecimento, a vítima pode trabalhar seus conceitos distorcidos, suas inseguranças, sua autoestima, suas fobias e os possíveis traumas, contribuindo para que ela consiga reestabelecer a própria percepção da sua integralidade e poder continuar sua vida com uma maior autoconfiança”, continua.

“Quanto ao sujeito abusivo, é imprescindível que o mesmo reconheça seus erros e reconheça que precisa compreender os motivos que o levam a ter determinados comportamentos de abuso. Assim como o trabalho da psicologia tem muito a favorecer para com a vítima, essa área de conhecimento também tem muito a contribuir com o sujeito abusivo, desde que este tenha o desejo de mudar e que o/a psicólogx, como profissional, se abstenha de seus preconceitos e julgamentos”, completa.

O caminho para um mundo em que a primeira relação abusiva de Me Chame Pelo Seu Nome seja exceção, não regra, passa por todos os remédios: conscientização dentro da comunidade LGBTQ+; combate do preconceito e heteronormatividade para que os jovens LGBQ+ tenham informações saudáveis e completas antes de darem início a sua vida sexual, e não precisem escondê-la do mundo; e o tratamento de traumas que leve a alguma medida de recuperação.

Falar de abuso nos relacionamentos LGBQ+ pode ser considerado perigoso por muitos dentro da comunidade, que temem se tornar alvos de críticas já armadas, miradas para a marginalização das formas de amar fora da norma hétero. No entanto, entender os específicos do abuso nesses relacionamentos é essencial para combatê-lo, e entender o papel da sociedade preconceituosa nesses específicos, também. Não se trata de culpar nosso amor por esses desamores, mas de buscar a melhor forma de transformá-los.

 


 

texto Caio Coletii e Gabriel Augusto
colagem Raquel Cutino