O balanço geral do movimento de valorização da vida fomentado pelo Setembro Amarelo, é de que hoje, mais do que nunca, faz-se necessário que o debate sobre transtornos mentais seja mediado, exercitado e continuado.

Apesar dos significativos avanços e conquistas em se tratando do processo de desestigmatização de transtornos como ansiedade e doenças como depressão, ainda existe um longo e tortuoso caminho a ser percorrido em relação a desmistificação do tabu em torno das mesmas, pois o preconceito e ignorância continuam a fazer vítimas.

Em 2017 a OMS declarou que 90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos. Agora, em 2018, a Fearless Magazine vem compartilhar depoimentos de dois profissionais da área da saúde sobre o assunto com o objetivo de trazer mais um facho de luz ao tema.

Ressaltamos que não deve haver nenhum sentimento de vergonha envolvido em se sentir triste e desamparado. Converse com amigos e familiares. Busque suporte profissional.

 

Entrevista com psicólogo: Diego Marson

O psicólogo, Diego Marson, 24, afirma que a pessoa que pensa em matar-se deseja apenas acabar com seus sofrimentos e não consegue enxergar outras soluções para suas problemáticas.

“O suicídio não é hereditário e nem uma doença. O suicídio advém de transtornos emocionais acometidos ao longo da vida do sujeito, é um ato produzido pela pessoa que encontra-se em sofrimento emocionalmente e este sofrimento emocional pode ser causado por patologias”, diz ele.

Sobre os estopins que podem levar a pessoa a tirar a própria vida ele diz que: “Isso é muito subjetivo, pois o que é motivo para mim, pode não ser motivo para você. Todavia, acumular sofrimentos, angustias, situações estressantes, podem ser motivos suficientes para as pessoas cometerem suicídio. É importante saber porque acontecimentos externos influenciam na sua saúde emocional. Ou seja, a junção de influências externas e uma saúde emocional abalada, podem agravar mais a situação”.

“Podemos observar que, em muitas famílias, normalmente as mais tradicionais, o integrante LGBT não é aceito e respeitado e isso pode fazer com que ele reprima suas necessidades e a si mesmo. Essas repressões podem gerar patologias, sofrimentos emocionais, e se o sujeito não possuir uma boa estrutura emocional, pode adoecer e em casos mais graves, pensar ou até mesmo cometer o suicídio”, afirma ele.

Diego atua há dois anos como psicólogo e diz que está nessa área, pois sempre gostou de estar entre pessoas e ajudá-las. O que pode ser feito para que uma pessoa não tire sua própria vida, segundo ele, é, inicialmente, uma conversa de conforto, acalento e principalmente compreensão, porque a pessoa em sofrimento emocional, muitas vezes, encontra-se confusa nos seus próprios pensamentos, desesperançosa ou muito desesperada. Ouvi-la e compreendê-la pode ser um caminho, mas encaminhá-la para atendimento psicológico é fundamental. Nunca a critique e julgue, isso pode ser pior.

 

Entrevista com psicóloga: Mariah Nóbrega Beltrami

“Suicídio é um assunto bastante delicado, pois nos convoca a pensar em morte, interrupção de uma existência, algumas vezes acompanhado de um pedido de ajuda diante de um sofrimento possivelmente devastador, outras vezes sem endereçamento. A vontade é de dentro do indivíduo, mas não sem um fora. A influência vem de fora, mas não sem um dentro que se forma na transmissão familiar, escolar, social, cultural. Um inaugura o outro e, nesse sentido, o ímpeto suicida é de responsabilidade individual e pública”, diz Mariah Nóbrega Beltrami.

Mariah, 34 anos, é formada em Psicologia pela Universidade São Marcos, especialista em Psicanálise e Linguagem pela PUC/SP e atua na área desde 2007. Ela diz que uma pessoa que tem em sua trama familiar um caso de suicídio pode ou não ser causado por esse significante.

“A psicanálise de orientação lacaniana, a qual me oriento clinicamente, não entende o suicídio como hereditário no sentido de congênito, ou mesmo como uma herança certeira, transmitida de geração em geração. Porém, o sujeito está na linguagem antes mesmo de seu nascimento, já é nomeado e falado antes de consistir no mundo. Então obviamente sua história faz parte da trama de seus antepassados e algo se transmite de sujeito a sujeito, algo que é da ordem de significantes, esvaziados de significados prévios, prontos ou processados”, informa ela.

Ao ser questionada se ser LGBT pode influenciar na decisão do indivíduo tirar sua própria vida, ela responde: “Estar sozinho interfere de alguma forma. Quando o sujeito, por sua orientação sexual ou por sua identidade de gênero, é renegado pela família e pelos amigos, a luta para encontrar seu lugar no mundo pode tornar-se bastante difícil. Vivemos numa sociedade cis heteronormativa, já é difícil para o sujeito LGBTQIA+ confrontar-se com seu fora de padrão social, aceitar-se e amar-se nessa diferença, sem apoio esse caminho pode tornar-se ainda mais espinhoso, em especial na adolescência”.

Para o sujeito não se encontrar na solidão e na falta de representação, ela sugere que se busque referências externas nos coletivos, representatividade na literatura, na televisão e no mundo.

A psicóloga e psicanalista diz que “o suicídio pode ou não estar atrelado a alguma doença, mas não há uma única forma de pensar o suicídio. É importante distinguir para não generalizar. Há os casos em que o sujeito comete suicídio de maneira a se livrar de um sofrimento avassalador, ou os casos em que o sujeito se suicida para se livrar de uma situação desonrosa, ou até oferecendo a própria morte para uma causa que, para aquele sujeito, é maior do que sua própria existência. Há também pessoas com ideias suicidas, e essas podem ser fantasias relacionadas as próprias impossibilidades diante da difícil viagem que é viver, mas podem por outro lado, ser ideias de um sujeito melancólico, em isolamento ocasionado por intenso sofrimento”.

“Para tentar evitar que uma pessoa próxima tire a própria vida é importante escutá-la, por mais doloroso que seja para o ouvinte. Escutar e reconhecer o sofrimento do outro, solicitar socorro aos órgãos responsáveis, buscar profissionais da área de saúde mental e sofrimento psíquico são alguns dos caminhos possíveis. Sofrimento pede reconhecimento, eu diria que reconhecer o sofrimento do outro é fundamental e um dos primeiros passos”, afirma ela.

Mariah é Sócia da “Espaço Singular Clínica de Psicologia” desde 2013, onde mantém consultório para atendimento de adolescentes e adultos com as mais diversas queixas. O que move seu trabalho é a escuta do sofrimento psíquico de sujeitos que buscam construir, de forma singular, novas narrativas, novas maneiras de lidar com as contingências, novas formas de escrever suas histórias.

 

Confira a lista de locais que oferecem atendimento psicológico gratuito em São Paulo.

 


 

TEXTO POR: ARTHUR AVILA E LETICIA DANIEL
ILUSTRAÇÕES: MARCOS BOSCOLO