Antes, é preciso voltar e explicar o começo para que possa entender que ainda não cheguei a fonte nenhuma.

Eu me chamo Omar, nome escolhido por meu pai, para homenagear um dos grandes homens de sua família. Sou o quarto Omar na família, o segundo ainda vivo. Omar, na nossa tradição, significa viver muito – “O homem que tem uma vida longa”. Mas, para manter esse significado eu precisei abdicar da minha crença, herança, família, amigos, história, casa e até do meu país. Precisei deixar de ser Omar para ser o ambulante “muçulmano” ou “o homem bomba” da Rua Vinte e Cinco de Março.

Isso tudo começou quando eu me apaixonei por Jamal. O conheci em uma mesquita em que meu pai, meu irmão e eu frequentávamos. Jamal mudou-se para o nosso bairro após o falecimento da mulher. Ele tinha uma filha, a pequena Iza. Acabei por me tornar um grande amigo dele, até cheguei a arrumar um emprego para ele em uma das lojas de tapetes do meu pai. Ficamos muito próximos, muito mesmo. Tão próximos que nossa amizade passou a ser questionada. Lembro que meu pai me questionava sobre Jamal e nossa amizade. Lembro de quando ele tentou nos afastar um do outro. Lembro de minha mãe chorando e dizendo que estávamos ferindo a Sharia.

Um dia, Jamal disse que não poderíamos nos encontrar mais. Alguma criança tinha dito para Iza que o pai dela merecia ser jogado do prédio mais alto da cidade para nunca mais praticar sodomia. Jamal estava com medo de que boatos sobre nós dois chegassem aos ouvidos de algum jihadista. Ele tinha medo e eu passei a temer também. Decidimos que não iríamos mais nos encontrar publicamente. Em algumas noites eu o visitava, mas o deixava muito antes do amanhecer.
Naquele mesmo mês, meu pai demitiu Jamal. Em uma tarde, enquanto eu negociava a venda de um tapete, meu pai entrou em nossa loja completamente furioso. Expulsou o comprador, fechou a loja e me obrigou a segui-lo até uma praça. Lá, junto a uma enorme multidão, me obrigou a assistir dois homens sendo lançados de um prédio de nove andares. Antes de serem jogados, um homem encapuzado anunciou o crime dos dois homens e suas sentenças: morte. Gays, foram acusados e confessaram manter relações íntimas e sexuais. Por ofenderem o Islamismo e a Sharia, não teriam perdão. Quando seus corpos tocaram o chão, me virei para deixar o lugar. Ainda conseguia ouvir o som de pedras sendo atiradas violentamente nos dois rapazes enquanto me afastava.

Poucos dias se passaram e tudo piorara. Meu pai me ignorava. Eu não podia mais trabalhar em sua loja, nem me alimentar enquanto ele estivesse na mesa. Vivia em clausura no meu quarto para não o ofender. Essa situação teve fim quando minha mãe entrou correndo no quarto, pegando algumas roupas, documentos e me dizendo para fugir. Segundo ela, meu pai me entregaria ao Tribunal Islâmico. Iriam procurar Jamal também. Se quiséssemos viver, era melhor esquecermos daquele lugar e recomeçar tudo uma vez mais.

Consegui encontrar Jamal antes dos jihadistas. Avisei o que iria acontecer e decidimos fugir. Junto com Iza, deixamos aquele vilarejo. Foi uma jornada difícil até conseguirmos deixar o país. Consideramos muitas opções, mas a que parecia ter menos chance de dar errado era o Brasil. Aqui, não cometeríamos nenhum crime em ficar juntos, pelo menos era o que pensávamos.

Nossa primeira tentativa aqui foi no Rio de Janeiro. Ficamos lá até nosso visto vencer. Não conseguimos nenhum emprego, mas ajudávamos em diversas coisas. Fizemos limpeza, segurança, atendimento telefônico, comida e até serviços braçais. Nada que nos desse algum registro ou condição melhor. Morávamos de favor em um barraco. Na comunidade onde morávamos, conseguimos uma ajuda de ONGs para nos alimentarmos e para ensinarem Iza a ler e escrever. Não tínhamos tempo para isso, aprendíamos a falar no dia a dia.

Achei que a religião nunca mais seria um problema, mas voltou a ser. Um dia, em alguns barracos depois do nosso, ouvimos muita gritaria. Traficantes, donos do morro, obrigaram uma mulher que seguia uma religião diferente a destruir tudo que pertencia a religião dela. Fizeram isso em nome do Deus deles. Ameaçaram a mulher o tempo todo, até que só sobraram as paredes no lugar. Ela deixou o morro pouco depois. Fizemos o mesmo quando nosso visto venceu. Já estávamos com medo do lugar e achávamos que seríamos deportados. Só de pensar eu já tenho medo. Decidimos fugir daqui pra São Paulo. Diziam que lá era maior, tinha mais empresas e mais trabalhos. Como sempre, diziam.

Encontramos uma mesquita no centro de São Paulo que nos ajudou. No começo, dissemos que eu era apenas um amigo da família de Jamal e que estávamos aqui tentando a vida para ajudar nossos parentes no Iraque. Ficamos com medo de dizer que estávamos juntos. Procuramos também organizações que ajudam refugiados. Novamente, escondemos nossa união. A maioria das organizações que ajudam refugiados são ligadas a religiões. Quase todas cristãs. Já tivemos uma experiência cristã no morro e ficamos com medo de outra experiência, de forma que aceitamos toda ajuda possível, em silêncio.
Há poucos meses, moramos em um apartamento pequeno de um cômodo só e um banheiro. Dividimos esse cômodo em dois quartos. Jamal dorme com a filha. Eu durmo no outro quarto, que também é uma sala de estar e jantar, só que sem televisão e mesa. Conseguimos um sofá que me tirou do chão. Ainda dormimos separados porque Iza segue as tradições Islâmicas. Jamal tem medo da reação da filha e não acha que está pronto para falar sobre o assunto, mas tentamos educá-la de uma forma menos tradicional ao Islã.

Depois de tudo isso, você já sabe quem é Omar e como sua história o trouxe ao Brasil. Mas talvez se pergunte “e a fonte que você procurava, Omar?”.

Eu fui criado por uma família que segue a tradição Islâmica e que não posso ver mais. Fugi do Iraque com o amor da minha vida, porque nosso país não separa a Religião do Direito e não posso anunciar nosso amor. As leis do nosso país são encaixadas na Sharia, que significa caminho para a fonte. Quando eu era pequeno, acreditava tratar-se de uma fonte de amor que me levaria para a felicidade eterna. Um sonho. Mas, cresci e não reconheço essa fonte como a dos meus sonhos.

Tenho uma nova chance aqui no Brasil. Atualmente, trabalho vendendo narguilés, essências e outros artigos de fumo. Moro com a pessoa que amo e a filha dele, que eu também amo. Mas, ainda não encontrei a fonte. E ainda sonho com o caminho que me levará até ela.

 

texto Luiz Marques
ilustração Lucy Lazuli