Não é difícil seguir o raciocínio: em uma família pautada por uma religião que não reconhece pessoas LGBTQ+ a rejeição, exclusão e escrutínio de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros não raro tem resultado o suicídio.

No Brasil, 445 mortes de LGBTQ+ foram registradas ou como assassinatos ou como suicídios, mais de 40% dessas pessoas tinham menos de 18 anos. O abandono religioso também é uma faceta desses crimes, pois muitos familiares amparados somente pela religião tomam para suas vidas as regras ditadas por dogmas ultrapassados em sua interpretação literal e acabam por condenar filhos e filhas a solidão e rejeição dentro da estrutura fundamental para desenvolvimento humano: a família.

São em 73 os países que consideram crime a homoafetividade, em 08 desses, a pena é de morte. Em todos esses países há presença de religiões oficiais ou ainda, predominância de um dogma, no entanto, a salvação não é para todos.

Algumas religiões permanecem intolerantes, é o caso do Islã que condena homossexuais e tem sido foco em se tratando de intolerância devido ao grupo terrorista mundialmente temido, Estado Islâmico, postarem na internet vídeos arremessando homens gays do alto de prédios no Oriente Médio.

No Brasil, apesar do Estado declarar-se laico, sem uma religião oficial, o cristianismo, em suas múltiplas vertentes é a religião mais cultuada no país. Os católicos, com a ascensão do Papa Francisco, assistem à uma lenta, porém significativa abertura de diálogo sobre a aceitação da população LGBQT+ na comunidade cristã.

Em 2013, em entrevista, Francisco respondeu sobre essa aceitação “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?” – surpreendendo a todos, católicos ou não.

O pastor da Assembleia de Deus, deputado e já eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marcos Feliciano declarou em 2011 que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime e à rejeição”.

Sob a ótica social, para muitas pessoas ter uma religião é também fazer parte de um grupo e assim sentir-se representado, forte na união com outros e que formam uma multidão com propósitos semelhantes, princípios iguais, coordenados pela religião.

O amparo psicológico do abraço religioso também é significativo para a construção e manifestação do indivíduo, é o espaço de conforto e de resposta que acalmam o desespero, a fé ocupa o cargo de justificar e apaziguar alegrias ou desgraças inexplicáveis ou absurdas para o ambiente racional.

Para Aline Honorato, 25 anos, hoteleira e lésbica, hoje frequenta a Umbanda, a fé não existe somente dentro de uma igreja, o problema é que algumas pessoas estragam (sic) as religiões com suas opiniões preconceituosas. Esse “estragar” continuamente está ligado à desinformação ou ainda, à interpretação paulatina de escrituras há muito feitas e que em muito pouco traduzem o que se espera de um Deus misericordioso.

”Nos meus momentos de aflição ou de alegria, eu procuro por Deus, mas é um Deus diferente, não é esse Deus cruel que castiga seus filhos” afirma Beatriz Sans, 23 anos, jornalista e bissexual.

A crueldade está antes no ser humano do que propriamente em uma divindade que inspire isso, é parte da crença descrente de Rafael Pinheiro, 29 anos, jornalista, especialista em Sociopsicologia e pesquisador acadêmico que, enfatiza “estar” homossexual.

“O corpo e a expressão da sexualidade devem ser livres e ilimitados. Sem amarras. Vejo a fé como algo positivo e produtivo, no que tange acreditar em si; acreditar no seu potencial; acreditar que, mesmo nesse mundo caótico-perturbador-intolerante existe sempre um caminho para o bem” afirma Rafael, agnostico, mas mais benevolente que muitos líderes religiosos.

texto Tamires Versannio
colagem Raquel Cutin