“Eu era uma criança viada. Quando começou a adolescência, eu me fechei muito. Para as pessoas, para mim, para minha natureza, e o rap era a coisa que eu mais me identificava e conseguia dar uma abertura para que as letras das músicas tivessem algum efeito na minha vida.”

Jefferson Ricardo da Silva, ou Rico Dalasam Disponho Armas Libertárias a Sonhos Antes Mutilados –, é o primeiro rapper assumidamente gay do Brasil. Começou a cantar e recitar o estilo musical aos 16 anos, nas batalhas de MCs do metrô Santa Cruz, mas começou a escrever raps com, aproximadamente, 12 anos, só que guardava as letras para si. “Na sétima série foi a primeira vez que me apaixonei forte por um menino. Ao mesmo tempo que doía muito, era mágico saber que aquilo fluía de mim e o rap era o jeito que eu tinha de contar, para ninguém, mas, pelo menos, tirava do meu corpo”, conta Rico.

O Rico Dalasam de hoje partiu da premissa: um menino apaixonado por outro que sabia escrever rimas. Mas ele precisou mais do que sua paixão para conseguir um espaço no mercado. Negro, gay e da periferia, teve, muitas vezes, que se mostrar acima da média, mesmo sendo a vaga que ele queria, para alguém que estava apenas na média. Ele diz que todo jovem que carrega consigo as qualidades de gay, negro, entre outras minorias, leva também o estigma da pré-seleção e que essa pessoa precisa, com frequência, se provar merecedor daquele lugar, não é algo que acontece naturalmente, que você merece só por ser competente naquilo.

 

“Nunca tive patrão, sempre trabalhei por conta, prestando serviços às pessoas, mas sem ter alguém para me dizer ‘não’. Partiu de um espírito independente que me fez criativo para não ficar duro e ter minha grana, fazer minhas coisas. Desde os 13 anos que trabalho e aos 16 já era bem emancipado, sem depender de grana da minha mãe, mas acho que tudo isso por conta da vontade de ser independente e desse meu espírito intrépido que não cedeu totalmente a um sistema que me trataria como lixo, como alguém que precisa provar muitas vezes mais que o concorrente que aquele lugar pode ser seu”, diz o ex-cabeleireiro nascido em Taboão da Serra.

Rico saiu da periferia puramente por necessidade profissional. Disse que o gasto em morar no Centro é um pouco maior, mas é mais prático. Ele estava começando a se atrasar para os compromissos e, no dia que conversamos, ele tinha que estar em mais dois lugares; caso ainda morasse em Taboão, não seria tão fácil cumprir sua agenda. A periferia, em sua opinião, é um lugar criado para as pessoas que precisam ser escondidas em algum momento. “No final de semana, o Centro não presencia a mesma quantidade de gente de periferia que ele presencia no dia de semana. O final de semana é momento de viver, de ser pleno – porque de semana você não vive, só presta serviços a alguém – e você está lá na sua periferia, onde sua imagem, sua estética, sua presença marginal, não interfere na vida de quem tem o centro como lugar de privilégio, de uma vida mais digna financeiramente”, acrescenta.

Desde que lançou seu primeiro EP em 2015, “Modo Diverso”, Rico já levou sua música a diversos países; a turnê “Balanga Raba”, de seu último EP, lançado em 2017, teve seu show de estreia na Parada Gay de Toronto, no Canadá. Assim, percebeu como o LGBT é visto de forma diferente em cada país. Para ele, o LGBT no Brasil é muito desassistido e carente de políticas públicas que os protejam.

 

“Não tá construído na nossa cultura que ao violar o espaço de alguém, você será severamente punido, como ocorre em outras constituições. Portanto só o ato de você demonstrar carinho em público te coloca em grande risco, muitas vezes, risco de morte. E ser negro também não é diferente. Se eu transito por lugares onde existe uma cultura invisível de que foi feito para eu habitá-lo em certos horários e eu estou ali, é como viver em uma zona de risco, um campo minado. Você tá amando, dançando, mas está com a espada na mão”, aborda ele.

Rico vê a homofobia no Brasil como um caminho sem volta, mas segue sem deitar para nada, como diz em uma música de seu último EP lançado, e com seu discurso para fortalecer o oprimido – mesmo acreditando que a mulher não tem que ser tão forte, o jovem negro tão resiliente e o LGBT não tenha que ter seus passos tão calculados – e que vale contar os dias do opressor.

No final de 2014, quando bateu de frente e iniciou sua carreira musical, ele criou uma gama de possibilidades para que outros artistas vindos da periferia possam, também, vir a ser expoentes. Agora, ele busca que as letras de suas músicas sejam legitimadas e virem sinônimo de coragem, assim como é sua imagem.

 

“Olhando quando comecei a cantar e hoje, percebo o mesmo grau de homofobia, só que em dimensões distintas, porque estou em outro lugar e em cada lugar a diplomacia funciona de um jeito. Antes o público LGBT não frequentava tanto os meus shows; hoje, isso mudou. Agora entendo que minha música tem força para alcançar tantos outros lugares. A música tem esse poder. No primeiro instante, na inocência da estreia, se você é bixa, preta e tem uma música que fala isso, você espera o retorno imediato desse público, só que a música tem sua própria magia. Algumas famílias tradicionais me ouvem e acham incrível e tem gente que tá na cadeia e também se identifica”, lembra Rico.

Sobre voltar a ser cabeleireiro e produtor de moda, Rico disse que nunca parou, pois todas as direções artísticas de seus trabalhos são feitas por ele e mesmo quando vai fazer algo de publicidade que não é dirigido por ele, ele pede para ficar responsável por alguma coisa, por exemplo, o styling – que envolve o figurino utilizado pelo artista.

 

Próximos trabalhos

Desde criança, teve inclinação para as artes e a música fez dele um canal através do rap, mas durante seu percurso, quando entendeu o sentimento que cada nota gera nas pessoas, seu jeito de compor foi mudando. Seu próximo disco já está pronto; pela quantidade de coisa que produz, ele conseguiria lançar dois por ano. Neste ano ele só colocou na rua a primeira parte do EP “Balanga Raba”, mas a segunda parte já está concluída.

“No próximo disco, que sai ano que vem, estou preparando canções. Não posso dizer que é rap. A atitude, talvez, sempre seja, porque é o jeito que meu corpo se move e comunica. Tem muito dessa coisa minha do trava-língua, de brincar com as palavras, mas eu não estou preocupado necessariamente se isso vai balançar a bunda das pessoas. É o que está no meu coração, então pode ter certeza que serão mensagens fortes. Quero dizer coisas sobre mim que não costumo dizer, expor partes da minha existência que mostram que eu não sou só força, que eu também tenho um monte de cacos e rasuras em processo de cicatrização”.

Para o jovem negro, LGBT, de periferia e que quer seguir uma carreira musical, Rico sugere que tudo seja feito com o coração, sem focar no que o mercado quer, para que a verdade, a vivência de modo mais simples, não seja perdida.

 

direção criativa Luca Weingärtner
texto Arthur Avila
fotografia Santiago Coronel
ass. de fotografia Lucas Danvie
produção Daniela Lourenço e Thais Maestrello
moda Caique Tavares, Luke Hauckmann, Matheus Capanema e Paulo Cachoeiro
beleza Carol Romero