É em uma rua sem saída de Pirituba, na zona norte de São Paulo, que mora a rapper Luana Hansen. Conhecida por suas letras abertamente em defesa das mulheres, LGBT+ e população negra, a artista percorreu e ainda percorre um longo e sinuoso caminho em direção ao seu sonho na música.

Única negra em família branca, filha mais velha de cinco irmãos, já vendeu bala no trem, serviu em balcão de padaria e mais uma infinidade de trabalhos, tudo para ajudar a mãe em casa. Enfrentou seu inferno pessoal quando caiu do tráfico para o consumo e se viu perdida por entre a sujeira da Cracolândia. Hoje, em uma nova vida, espalha com a música suas vivências, na esperança de ser farol na vida de quem, como ela um dia, já se perdeu por entre as ruas de São Paulo.

Sua infância fora marcada pela falta do pai e pelas obrigações que quase sempre lhe roubavam das brincadeiras. Topou com a música popular brasileira ainda criança, Clara Nunes e Elza Soares foram algumas das que plantaram em seu peito as sementes que hoje germinaram em 17 anos de carreira.

Na adolescência, Luana entrou para o tráfico, aos 14 anos. Começou levando droga do traficante ao consumidor, na ascensão virou dona da biqueira, no declínio foi expulsa de casa e acabou na Cracolândia. Mesmo nesta fase, a música ainda estava ali, tímida, germinando sua melodia. Dos encontros do tráfico, nem todos foram ruins. Com a que já tinha no peito, encontrou outras fontes para enriquecer sua música. Conheceu Sabotagem, Cartel ZO, Negra Li, e assim se viu envolvida de corpo e alma com o RAP. Começou escrevendo as letras das músicas, com ajuda dos amigos, foi ao longo de 17 anos construindo sua carreira.

 

O espaço precisou ser aberto na porrada, lutando diariamente por ser uma mulher lésbica em um ambiente de maioria masculina, como é o RAP. Seu novo CD carrega essa história em suas músicas e em sua capa. Intitulado Favela, o álbum está sendo gravado dentro da favela da Vila Elba, no extremo leste da cidade. O álbum vem carregado da história de Luana, compartilhando suas dores e indignações, busca poder transmitir conhecimento, fomentar debates, mudar visões de mundo e ensinar com seus erros e caminhos.

O seu público é a joia de sua coroa e tem mais espaço em sua vida do que os prêmios que já recebeu por suas músicas, como é o caso da faixa Ventre Livre de Fato, onde aborda o tema do aborto. Ela diz ter conquistado hoje o que sempre sonhou, o público pensante. Misturando suas vivências na periferia, como mulher, como lésbica e como negra, Luana sente-se privilegiada em poder transitar por ambientes e espaços que raramente conversam entre si.

Hoje, mãe lésbica de duas crianças, sonha em construir um mundo e uma família melhor para seus filhos. No peito, talvez o que mais mova seus passos seja a busca pelo reconhecimento. Esse é o destino em que espera que seu caminho termine.

 

texto Victor Galhardo
fotografia Bernardo Enoch