Muito se fala atualmente sobre representatividade LGBTQ em produções audiovisuais e tem sido notável o aumento na quantidade de longas-metragens nacionais e internacionais que abordam essas vivências, assim como séries cujas histórias revolvem em torno de personagens e questões trans, bis, gays e lésbicas. É de extrema importância, no entanto, que, enquanto membros da comunidade LGBTQ, nos atentemos a quem está contando essas histórias, uma vez que passam pelo filtro de quem as roteiriza, dirige e, de forma geral, concebe e realiza.

Azul é a Cor Mais Quente (2013), por exemplo, um dos mais aclamados filmes lésbicos dos últimos anos, foi dirigido por Abdellatif Kechiche – homem e heterossexual – e, apesar de ser baseado numa HQ escrita por Julie Maroh – lésbica assumida -, apresenta muitas problemáticas decorrentes da visão masculina acerca do tema, sendo a principal delas a distorção e fetichização das gráficas e extensas cenas de sexo entre as duas personagens principais. A própria autora manifestou mais tarde sua insatisfação com a abordagem do diretor, que, ao retratar o sexo lésbico quase como o que se vê em filmes pornôs, acabou por torná-lo risível e inverossímil. Esse fato, como tantos outros, evidencia a necessidade de protagonismo de mulheres lésbicas em produções que tematicamente lhes dizem respeito.
Uma das mulheres que está fazendo isso é a produtora executiva e escritora da série The Fosters (2013 – presente), Joanna Johnson. A série é centralizada num casal de lésbicas e seus filhos adotivos, num retrato que foge por completo do estereótipo fetichista de jovens explorando e descobrindo sua sexualidade, para mostrar, ao invés disso, os dramas da adoção, da maternidade, da violência e dos preconceitos sofridos por essas mulheres adultas. Johnson, assim como suas personagens, é também lésbica, casada e mãe, e seu olhar e vivências fazem toda a diferença ao trazer veracidade e seriedade em sua escrita.

Angela Robinson, diretora, produtora e roteirista, frequentemente trata da temática lésbica em seus trabalhos e é uma das poucas mulheres lésbicas negras da televisão americana que tiveram espaço para escrever sobre e criar personagens que, assim como ela, são mulheres negras LGBTQ, dentre elas Tara Thornton (True Blood), Annalise Keating (How To Get Away With Murder), Bette Porter e Tasha Williams (The L Word), todas elas inteligentes, complexas e repletas de questões profundas, cuja personalidade vai muito além de sua sexualidade.

 

 

No cinema, a diretora Dee Rees, responsável pelo premiado filme Pariah (2011), é outro grande exemplo. Com distintiva sensibilidade, a diretora conta a história de uma jovem lésbica negra que não performa feminilidade, suas paixões e amizades e seu processo de se assumir para os pais. Ao fazer isso, no entanto, Rees não parte de uma visão julgadora e maniqueísta, tampouco aponta para qualquer um de seus personagens como vilão – apesar da mãe não aceitar a sexualidade da filha -, mas entende e transmite os acontecimentos como parte do processo de amadurecimento e autoconhecimento da personagem principal. Novamente, apesar de se tratar de um filme sobre descobertas sexuais e desilusões amorosas, não é uma história clichê pois suas personagens não são padronizadas e repetitivas, mas sim reais.

No caso do filme The Kids Are All Right (2010), escrito e dirigido por Lisa Cholodenko (também responsável por High Art, de 1998), a história partiu de uma experiência pessoal da autora com inseminação artificial e maternidade. Apesar do envolvimento do doador de esperma na relação e na vida do casal de mulheres (interpretadas por Julianne Moore e Annette Benning) e as consequências disso, o filme trata dessa realidade lésbica com surpreendente senso de humor e leveza, um retrato consideravelmente distante da costumeira melancolia e pessimismo que permeiam outras tantas produções de temática sapatão.
Há, ainda, muitas outras escritoras, diretoras e produtoras assumidas cujos trabalhos representam fiel e respeitosamente a vivência lésbica, como Jamie Babbit, Aurora Guerrero, Céline Sciamma e dezenas de mulheres que criam e produzem muitos dos programas que assistimos e conhecemos. É claro que o lesbianismo por si só não impede a reprodução de comportamentos e dogmas heteronormativos, de estereótipos, sensos-comuns ou mesmo de outros preconceitos, visto que essas são, ainda, coisas presentes na vida de mulheres lésbicas em todo o mundo. Dessa forma, é importante que tais questões sejam também abordadas e discutidas por quem as vivencia, e é por essa razão que, de todo modo, devemos abrir espaço para que mulheres lésbicas contem suas histórias e sejam protagonistas das produções audiovisuais que as representam.

 

texto e colagem por Raquel Cutin