Eduardo Júnior, 21, cresceu em meio ao universo da moda. Desde pequeno, entre às máquinas de costura de sua tia, começou a enxergar em panos e tecidos a possibilidade de expressar toda arte que lhe pulsava. Criado na periferia de São Paulo por pais evangélicos, percebeu logo cedo que era diferente do resto da família. Aos treze anos, já entendendo sua sexualidade, resolveu contar para os pais e, mesmo com dificuldade iniciais, que, segundo Eduardo, foram como se “assumir uma segunda vez”, conseguiu encontrar apoio em casa.

O primeiro contato com drag queens veio na adolescência, em uma balada em São Paulo, durante uma performance do Trio Milano, grupo de drags conhecido nas baladas LGBT+ da cidade. A curiosidade e o espanto levaram Eduardo a buscar cada vez mais conhecimento sobre o universo e encontrou no YouTube sua “drag mãe”, gíria para a drag queen mais velha que ensina uma mais nova as técnicas da arte. De um começo tímido à criação de Duda Dello Russo, Eduardo mostra sua evolução como artista na confecção de roupas cada vez mais ousadas e diferentes, e também no aprimoramento da maquiagem.

Sem saber distinguir onde um começa e o outro termina, Eduardo costuma entrar em conflito, afinal, roupas, sentimentos, inspirações e tantos outros traços das personalidades dos dois se misturam, que fica difícil compreender o que exatamente é de cada um. A busca por equilíbrio é constante, segundo ele, na tentativa de não deixar o emocional interferir.

 

Eduardo também conta sobre o preconceito de dentro da própria comunidade LGBT+, onde muitos gays não se relacionam com quem se monta.  Fora do meio, conta que sofre mais quando está vestido de Eduardo do que de Duda. “Sou bem afeminada, isso faz com que eu seja alvo de mais preconceito. A Duda é diferente, as pessoas até dão uma risadinha ou outra, mas ninguém nunca fez nada”. Apesar disso, diz que hoje em dia, principalmente depois da explosão de artistas drags, como Pablo Vittar, tem havido mais conscientização dentro e fora da comunidade, o que tem melhorado um pouco a questão do preconceito.

 

Uma das partes mais difíceis de sua vida como Duda vinha do trajeto que tinha que fazer entre a periferia e o centro, para trabalhar nas festas. O caminho deixava-o apreensivo e sempre em alerta. Tinha que sair montado e maquiado, pegar o último ônibus até o metrô, onde costumava pegar sempre um dos últimos trens. Em banheiro de bares e de espaços públicos, terminava de se arrumar. Durante todo percurso sentia olhares, ouvia piadinhas, perdia o ônibus por que o motorista decidia não parar. E o medo de apanhar sempre ali, na espreita.

Dos presentes trazidos por Duda, está a carteira assinada, os fãs e um reconhecimento que não para de aumentar. Veio também a primeira viagem de avião e uma série de cidades visitadas pelo Brasil. Para o futuro procura sonhar sem limites, mas sempre buscando levar consigo a luta pela valorização da arte drag.

 

texto Victor Galhardo
fotografia Bernardo Enoch