Desde 1997 o maior expoente lésbico do Hip Hop era Queen Penn, com a música “Girlfriend”, insinuando que roubava namoradas. Queen Penn, apesar de ser uma mulher heterossexual, foi capaz de, com esse single, causar grande polêmica no rap, não só por ser mulher, mas principalmente uma mulher falando que beijava outras mulheres. 20 anos depois e o lesbianismo no rap ainda é assunto.

Lil Kim, Missy Elliott, Nicki Minaj: o mainstream já aceita muito melhor as mulheres na indústria, pelo menos. É, porém, irrefutável que a presença feminina no rap está atrelada a heterossexualidade, a performance de feminilidade, à rivalidade feminina e adoração de homens. Isso, de forma alguma, reduz o mérito dessas mulheres  – que já representam um avanço no cenário musical mundial: são mulheres negras cantando sobre seus cotidianos, vida pessoal, sexual, desejos, sonhos. Tudo isso é louvável, claro, mas a narrativa é sempre, invariavelmente, heterossexual e, portanto, o espaço reservado para mulheres lésbicas no rap hoje vive no rap dito “masculino”.

A diferenciação entre o rap masculino e o feminino está muito mais ligada à performance de feminilidade do que ao sexo, de fato. Young M.A, por exemplo, foi indicada pelo BET Awards, abriu shows para Beyoncé, ganhou um MTV Music Award e, ainda assim, não é nunca tratada como uma Rapper Feminina. M.A. é uma mulher lésbica assumida, de descendência porto riquenha, que canta sobre ser sapatão. Ela não performa femilidade e é considerada uma “stud“, termo popular nos EUA que designa mulheres que não performam feminilidade e tem um comportamento considerado “masculino”, e sua música traduz muito do que se é esperado de mulheres sapatonas no rap: reprodução de comportamento tóxico masculino. M.A objetifica mulheres, canta sobre carros, dinheiro, vadias. Ela não faz somente isso, mas é nessas músicas que recebe reconhecimento. A artista tem músicas sobre violência de gangues, violência racial, lesbofobia, mas é lembrada como a mulher lésbica que reproduz comportamento masculino, como “um deles”. Young M.A é a mulher sapatona mais bem sucedida que já existiu no rap, e, ainda assim, não encontra apoio na comunidade LGBT como artistas heterossexuais brancas que se dizem defensoras da causa e são racistas, homofóbicas e/ou fetichistas.

Outras rappers lésbicas que não estão no mainstream como M.A enfrentam as mesmas barreiras que ela para conseguir seu espaço: é esperado delas que sexualizem mulheres, que sejam “como os caras” pois, do contrário, são ignoradas, diminuídas, obrigadas a esconder sua sexualidade. Angel Haze é um grande exemplo – a artista se moldou para não ter que seguir essas expectativas, não fala sobre lesbianismo nas suas letras, começou a performar feminilidade à medida que foi ganhando projeção. A realidade do rap é que ele ainda é muito calcado nos padrões de gênero e as artistas não tem culpa nenhuma disso. Os rappers heterossexuais, os homens, conseguem sucesso e adoração sendo misóginos e se beneficiando disso enquanto mulheres sapatonas são condenadas por reproduzirem o mesmo comportamento que é a elas socialmente imposto. Artistas como Drake, inclusive, ganham fama nas costas de mulheres rappers lésbicas: “Fake Love” e “Ice Melts” do artista foram escritas por Starrah, que já escreveu músicas para R.Kelly, Jerimih, Travis Scott, Big Sean e uma infinidade de homens rappers e recebeu pouquíssimo reconhecimento mainstream. Starrah está no início de uma carreira solo como rapper, mas as músicas escritas e cantadas por ela não tem nem metade da projeção de suas letras cantadas por homens. Ela não mostra o rosto em seus videoclipes e raramente o faz nas redes sociais, indício da evidente pressão que sofrem mulheres lésbicas que não performam feminilidade dentro do rap.

070 Shake é uma artista que canta sobre relações lésbicas, sobre sua realidade, sua a vida. Ela é poeta e participa de um grupo (070) com três homens. A artista é mais uma jovem rapper sapatona que assim como M.A, como Starrah, Siya, tem sua carreira constantemente minada por sua sexualidade e sua coragem de falar abertamente sobre ser uma mulher lésbica e, mesmo assim, está quebrando barreiras. Shake lançou um clipe pela VEVO esse ano e é a artista do seu grupo com a maior projeção. Ainda assim, a artista é constantemente questionada sobre seu gênero, sobre sua namorada e regularmente comparada com seus companheiros de grupo.

Essas artistas são só algumas das mulheres sapatonas que estão fazendo história – ou, como diria M.A em seu novo álbum, fazendo herstory – e precisam de reconhecimento acima de qualquer expectativa, classificação de gênero ou problematização lírica para que possam promover a representatividade no rap, para que possam abrir espaço para futuras gerações de mulheres sapatonas conscientes que consigam quebrar com a imposição do comportamento masculino tóxico. Para haver evolução e conscientização é necessário primeiro que alguém tome esse espaço e, ainda que não pareça possível, essas mulheres já estão tomando.

 

texto Giovana Macedo
ilustração Raquel Cutin