A busca por seu lugar na sociedade sempre foi uma equação difícil de balancear para Danna Lisboa, 36. A vida como mulher transexual no país que mais mata travestis e transgêneros no mundo trouxe algumas das experiências mais difíceis, que só foram acolhidas por meio da música. Logo cedo, aos 18, veio primeiro contato com o universo LGBT+. Na época, ainda buscando entender quem ela era, começou a se apresentar em baladas como drag queen, foi aí que nasceu Danna Black. As referências de cantoras black americanas sempre foram elementos presentes e se misturaram com o rock e o RAP.

As indagações com relação a negligência da pessoa negra e periférica vieram muito cedo. Não se ver representada na televisão, nem na música ou em qualquer outro ambiente artístico sempre foi uma questão delicada e que mexia com a autoestima de Danna. Para suprir essa falta, decidiu ela mesma se tornar referência para as outras mulheres trans e negras. Queria que as pessoas se sentissem incluídas, capazes, queria iluminar o caminho de quem estava sem referência e mostrar que o lugar da travesti e da transexual é onde elas quiserem e sonharam.

 

Quando começou a se entender como mulher trans as relações com a família, que já tinham dificuldade em aceitar uma possível homossexualidade, se tornaram ainda mais complexas. Saiu de casa na juventude, foi morar com amigos, passou fome e precisou recorrer as esquinas e avenidas de São Paulo para tirar seu sustento. A fase na prostituição foi uma das que mais marcaram a cantora e suas dores e vivências acabaram se transformando em música com a faixa Cidade Neon. Desta época, uma das lembranças que mais deixou marcas foi quando, morrendo de fome, precisou usar uma lata velha de óleo como panela para esquentar um miojo.

Essa lembrança dolorida também revela a falta de oportunidade que nós, enquanto sociedade, continuamos a perpetuar para as pessoas trans. Danna recorreu à prostituição por que não encontrou espaço para trabalhar dignamente. Essa dor só não é maior do que o trauma de ter deixado de estudar, quando ainda era criança, sofreu uma série de ameaças na escola, por ser muito afeminada. Longe da família, sem apoio e sem ter para quem recorrer, passou pelas ruas e pelas transformações corporais sozinha.

Hoje, a ponte com a família foi refeita. Morando na parte debaixo da casa de sua mãe, Danna fez as pazes com seu passado e com seu corpo. Sua paixão por explorar a arte em todas as suas formas e expressões continua pulsando forte, junto com a busca por seu espaço no mercado e na cena independente da música. Mas o maior sonho de Danna Lisboa continua sendo um: tirar os transexuais das estatísticas e coloca-los no local dos sonhos, e para isso, sua arma é uma só a música.

 

texto Victor Galhardo
fotografia Bernardo Enoch