Suellen está pronta para abalar. Depois de vestir uma blusinha nova e se maquiar por algumas horas, ela colocou a picumã que tinha e estava prontíssima. Suas amigas estavam lá também, ajudando a gayrota a se preparar para mais um baile funk na Favela de Heliópolis, o famoso Baile do Helipa!

Na rua, compraram dois corotes para esquentar a caminhada até o fluxo. Animadas e levemente alcoolizadas, já sorriam e sarravam até o chão. Eis que então começaram a se espremer e desviar de um ou outro que dançavam pelo caminho. Elas queriam chegar o mais próximo possível da caixa de som de um dos carros que tocavam MC Kevinho ao máximo! E quando o grave bateu, meninas, não sobrou bumbum parado.

Entre uma risada ou outra que chamaram a atenção de Suellen, sem ver nenhum palhaço ou motivo para rirem, percebeu que um boy ou outro olhavam para ela. Eles riam dela. De vez em quando um deles se arriscava a vir atrás dela pra sarrar um pouco, mas só na zoação, porque saíam correndo da dança dizendo um para o outro “cê é louco”. E as risadas continuavam.

Pobre Suellen, sarrava com as amigas porque eram sua única proteção. Se arriscar em chavecar um boy ali era o mesmo que arriscar ganhar uns tapas. A noite adentro foi inteira assim: um riso aqui, um boy zoando ali, uma cerveja que tacaram nela e ela dançando com suas amigas. Era dia de baile e nada iria estragar sua alegria.

Era hora de ir embora. As amigas, todas cansadas, ajudavam a mona Kendra a andar. Ela exagerou ao tombar mais uma cantina do vale. A polícia já estava no local e a festa chegava ao fim. Com os saltos nas mãos, as amigas caminhavam para a casa de Suellen, ignorando todos os convites sexuais debochados que ganhavam de alguns garotos e os olhares e risinhos pelo caminho. Era sempre assim.

Ser quem você é pode ser perigoso. Nem todo mundo vai aceitar a sua forma de ser. Precisa ter coragem para viver sob uma máscara, mas precisa de mais coragem ainda para tirá-la e fazer seu sorriso reinar e dominar os problemas. Dominar a ignorância dos outros.  Suellen era a prova disso. Vestir sua peruca e sua blusinha era sua forma de se armar para combater uma sociedade que se preocupava demais com a vida dos outros.

Na segunda-feira, pouco depois das seis da manhã, Maycon estava de banho tomado e vestido com roupas sociais. Ele era office boy em uma empresa de contabilidade na região da Luz, no centro da cidade. Tinha alguns minutos para comer, antes de subir no ônibus e começar a rotina semanal, mas ficou sentado em sua cama, cansado. Estava cansado de todo o rolê com as amigas no final de semana, de ter que tirar toda a maquiagem que usou para ser Suellen e também de ter que voltar a rotina que não alegrava em nada a sua vida, mas era sua melhor opção para garantir que no próximo final de semana Suellen voltasse à vida.  

 

texto Luiz Marques
ilustração Giovana Macedo