Em 1948, com apenas 16 anos de idade, Cassandra Rios publicou seu primeiro livro: A Volúpia do Pecado. Retratando o amor entre duas mulheres com bastante naturalidade, sem patologizar ou criminalizar, e dando um final positivo a trama, ela foi pioneira na literatura brasileira e quiçá mundial. Entre as manchetes que destacam
Cassandra, podemos evidenciar as dizendo que ela foi uma das pessoas mais censuradas durante o período da ditadura militar no Brasil. Segundo O Globo, 33 dos seus livros foram censurados por incluir conteúdo pornográfico e/ou homossexual.

“(…) Desde o início da minha carreira, eu venho sendo perseguida por ter descerrado a cortina da hipocrisia, por ter rompido preconceitos e por ter desprezado e pisado em tabus a fim de despertar interesse por determinado assunto, libertando-o das amarras da falsa moral e do puritanismo (…) Joguei com a coragem, sem medo dos escândalos, sem temer as falsas interpretações e o meu envolvimento pessoal e sem me acovardar diante das perseguições”, escreveu Cassandra no livro Maria Padilha, lançado em 1979.

Entre os anos da ditadura militar (1964-1985), as artes foram fortemente censuradas a pretexto de prezar pelos “bons costumes” e conter a temível ameaça comunista. Assuntos como pornografia e romance entre pessoas do mesmo gênero não poderiam circular entre os cidadãos brasileiros. Essa caça às bruxas não conseguiu parar Cassandra, que expressou na literatura não só sua orientação sexual, mas também uma sexualidade vivida e sem o menor pudor.

Em 2017, sessenta e nove anos depois do lançamento do primeiro livro de Cassandra, mais mulheres estão trazendo perspectivas variadas da identidade lésbica para a literatura nacional.

Natalia Borges Polesso ganhou o Prêmio Jabuti, uma das premiações literárias mais importantes do Brasil, pela coletânea de contos Amora (Não Editora). “São contos sobre descobertas, relações, xadrez, paixões adolescentes, depressão, identificação, companheirismo, velhice, infância, pobreza, morte, festas, grupos, sobre tudo que todos nós fazemos. Queria apontar isso com os contos: somos mais que nossa sexualidade, isso não nos define, somos seres completos”, afirma Natalia em entrevista para a FEARLESS Magazine.

Entre os 12 e 13 anos de idade, Natalia achou que havia algo de errado com ela. O motivo? Tinha interesse tanto por meninos quanto meninas. Sem ter com quem conversar sobre isso, escondeu seu interesse até quase o fim da adolescência. Foi aos dezessete anos, com o aparecimento de uma personagem lésbica, interpretada por Christiane Torloni, na novela Torre de Babel (1998), que ela encontrou abertura para comentar com suas colegas que não se interessava somente por homens. “Mas só fui beijar uma mulher quando tinha quase dezoito anos”, declara Natalia.

“É bom que possamos nos reconhecer nas narrativas. É ótimo que possamos ler algo que nos diz algo importante, que nos diz que não estamos sozinhas. Mas para além do público LGBT, estas representações plurais fazem bem a todo o mundo.”, observa Natalia. E ainda descreve suas primeiras impressões ao ter suas primeiras descobertas LGBTQ+ na literatura: “Depois que conheci os escritos de Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles. Lembro da sensação de ler e pensar ‘isso tá indo pra um lugar que fala diretamente comigo”.

Atualmente, Natalia aponta gostar do trabalho de Vange Leonel, Cassandra Rios e autoras contemporâneas, como Lisa Alves, Sabrina Alento Mourão, Cidinha da Silva, Lucia Facco e Cristina Judar. “Não faltam autores, nem obras. Falta circulação destes, falta falar mais delas, falta discutir assuntos importantes a partir de um novo olhar estético”, elucida Natalia.

Em entrevista, Cristina Judar também falou da importância de autores LGBTQ+ difundirem suas obras: “É importantíssimo que autores LGBTs se inscrevam em prêmios, mandem seus livros para editoras, circulem em eventos, leiam os seus contemporâneos, conheçam o que há de melhor e de pior, tenham senso-crítico e se
livrem da autopiedade, invistam em si mesmos e na sua literatura, deem a cara a bater e se coloquem de igual para igual com os outros escritores”.

Cristina Judar é jornalista e autora de duas histórias em quadrinhos, além do livro de contos Roteiros para uma vida curta (Editora Reformatório), e mais recentemente lançou seu primeiro romance, Oito do Sete (Editora Reformatório). Com duas protagonistas lésbicas, o livro reúne duas mulheres que são definidas por muito mais que suas sexualidades, são pessoas completas e complexas. “Magda e Gloria são lésbicas e a história delas
faz parte de um todo, de um sentido maior. Elas não estão à parte, não são peças desencaixadas: apesar de suas personalidades únicas e individualidades, elas são parte. Elas são vistas e encaradas como qualquer pessoa, como acredito que as pessoas LGBTs devam ser vistas e respeitadas e, principalmente, representadas pela arte, no Brasil
e no mundo”, conta Cristina sobre o enredo de Oito do Sete.

A Próxima Autora

Recém formada em jornalismo, Lola Cirino, 22, lançou seu primeiro romance em janeiro de 2017, O Próximo da Lista (Editora Multifoco) trata da descoberta da sexualidade de Felícia, jovem perto dos 30 anos que acabou de terminar o relacionamento com o namorado e, com a ajuda do melhor amigo, marca de sair pela primeira vez com uma mulher por meio do Tinder. “Um dia eu tava tentando dormir, só que eu durmo muito tarde, aí eu comecei a pensar nessa história e eu não consegui parar de escrever, escrevi a madruga inteira”, explica Lola.

Lola não se lembra do seu primeiro contato com personagens LGBTQ+ na literatura e outras obras de ficção, mas viveu boa parte da infância e adolescência sem ter conhecimento de nenhum. “Não tinha sei lá, um desenho, uma série, uma novela que falasse disso. Tudo que você via era que lésbicas e que gays eram errados. Na verdade, era como se não pudesse nem falar sobre esse tipo de coisa. O processo de se descobrir já é uma coisa bem complexa,
seria muito mais fácil se tivesse mais informação, se você começasse a ler livros com lésbicas e fosse tratado como algo normal, você não ia se sentir que está errado descobrindo quem você é, não deveria ser algo tão pesado como é hoje”, disse Lola.

Pela falta de representativade e uma figura para conversar, Lola acabou sujeita ao que contaram sobre ser um LGBTQ+, ela lembra de quando uma tia descobriu que ela estava ficava com meninas: “quando eu comecei
a ficar com meninas, eu fazia isso escondido. Uma vez essa tia me pegou com uma menina e falou: ‘você não pode fazer isso, é errado, se você fizer de novo eu vou ter que contar pro seu pai, vocês vão pro inferno’, essa conversa toda eu tinha uns treze, quatorze anos. E aí depois disso eu realmente parei sabe, eu falei ‘meu deus, eu vou pro inferno’ e eu parei mesmo”.

Por sorte, revelar que gostava também de mulheres para familia acabou saindo melhor do que o esperado, sua irmã disse que já sabia e o pai recebeu com certa tranquilidade. O mais difícil foi contar para a mãe, Lola explica: “minha mãe é mais tradicionalista, então ela tem essa ideia de que isso é só uma fase, que eu vou gostar mais de homem. Ela fala muito que é para que eu não sofra, ela sabe que não vai poder pegar todas as minhas dores e, sei lá, me ajudar toda vez que alguém for me machucar”.

Para o futuro, Lola pretende se dedicar em outros projetos, como seu canal no Youtube, viajar para os Estados Unidos e lançar mais livros, até uma continuação para O Próximo da Lista está nos planos. Questionada se está escrevendo no momento, ela responde: “Sim, eu estou sempre escrevendo alguma coisa. Pretendendo lançar algo em breve, não sei se tão breve, mas no fim do ano que vem pode ser que saia algo novo, não quero ficar muito tempo sem publicar nada, é algo que eu gostei muito de fazer”.

 

texto Ricardo Miguel
ilustração Giovana Macedo